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O LADO B DA LITERATURA

DRUMMOND ANTES DA ESTÁTUA

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Hemeroteca Digital Brasileira

Vi Carlos Drummond de Andrade pela primeira vez num livro do primário. Ele ainda era vivo e já se tornara lenda. Nunca entendi o que compunha aquele homem mineiro e férreo. Itabira, a pedra, José, o poeta grave diante das questões do mundo. A imagem é verdadeira, mas não o mostra inteiro. Antes de se tornar um autor repetido em escolas, vestibulares e cerimônias, Drummond, nascido em 31 de outubro de 1902, foi parte de uma geração que precisou encontrar, por conta própria, meios para publicar, discutir literatura e sobreviver fora do conforto de um mercado editorial que quase não existia num Brasil sempre em construção.

Recortes antigos ajudam a enxergar esse Drummond menos solene. Neles aparece o rapaz de Belo Horizonte, ligado a Emílio Moura, Abgar Renault, Pedro Nava, João Alphonsus, Gustavo Capanema e outros nomes que circulavam entre jornais, repartições e pequenas rodas literárias. Não havia ainda a estátua, nem a cadeira cativa no cânone. Havia jovens tentando formar um ambiente intelectual numa cidade que não era o Rio nem São Paulo, mas que tinha ambição cultural e vontade de brilhar na cena do modernismo.

Em 1925, Drummond esteve entre os criadores de A Revista, publicação associada ao modernismo mineiro. Correspondia-se com Mário de Andrade e acompanhava o que vinha acontecendo em São Paulo desde a Semana de Arte Moderna. A relação não era de submissão nem de mímese. Os mineiros formavam um grupo próprio, mais recolhido, menos performático, mas atento às mudanças de linguagem que desafiavam a literatura brasileira.

A imprensa da época o rotulava. Chamava-o de homem cordial, discreto, tímido, organizado, pouco dado a festas. Falava de sua reserva como quem procura decifrar a poesia pelo temperamento de seu autor. Em certos perfis, aparece o funcionário metódico, quase burocrático, que raramente saía de casa. Em outros, surge o jovem que teria enfrentado a polícia em manifestações estudantis de Belo Horizonte. A contradição é interessante. Talvez Drummond tenha sido mesmo um homem de pouca exteriorização, mas não de pouca inquietação. Sua poesia mostra que uma pessoa calada pode ter uma vida interna ruidosa. Que, no íntimo, era leve e bem-humorado. Eficiente na função pública, aberto aos amigos do peito, preocupado com as questões do país.

Essa tensão entre recolhimento e participação é um dos traços mais fortes de sua trajetória. Drummond entrou cedo no serviço público, trabalhou em Minas e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro para assumir a chefia de gabinete de Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde Pública. Ficou durante anos no centro administrativo de um país que vivia mudanças políticas profundas. Não era um poeta isolado numa torre. Lia processos, redigia ofícios, acompanhava o funcionamento de uma máquina estatal pesada e, ao mesmo tempo, escrevia poemas que tratavam de medo, guerra, desejo, injustiça, memória e desconcerto.

 

 

 

Mas talvez o episódio mais revelador dos recortes seja anterior ao Drummond funcionário de Capanema. Em Belo Horizonte, existiu uma sociedade chamada Amigos do Livro. Era uma pequena cooperativa de escritores. Cada integrante contribuía com dinheiro para que um livro de outro membro pudesse ser impresso. Não havia glamour nisso. Era uma conta simples: autores reuniam recursos, pagavam a gráfica e viabilizavam tiragens reduzidas.

Drummond participou da experiência. Brejo das almas, publicado em 1934, saiu em edição de apenas duzentos exemplares. Hoje, quando uma obra de Drummond é facilmente encontrada em livrarias, sebos digitais e bibliotecas, o número parece quase simbólico. Mas aqueles duzentos livros diziam muito. Eles representavam um esforço coletivo para que uma voz literária existisse materialmente.

A iniciativa tinha uma lógica que continua atual. Um escritor jovem não depende apenas de talento. Depende de condições de circulação, leitura, edição, distribuição e encontro. Precisa de leitores, mas também de gráficas, editores, amigos, espaços de publicação, gente disposta a arriscar algum dinheiro e algum tempo. Os Amigos do Livro não resolveram o problema editorial brasileiro, evidentemente. Duraram pouco. Ainda assim, deixaram uma lição prática: quando o mercado não abre o caminho, é preciso construir uma passagem menor, forçada e imperfeita, mas própria.

Drummond, muitos anos depois, lembraria a experiência com uma espécie de saudade crítica. A sociedade morreu. Mas ele via naquela “vaquinha” uma fórmula simples e eficaz para jovens escritores que passavam anos à espera de um editor. A observação não parece ter envelhecido. Ainda hoje, há autores dispostos a fazer qualquer concessão para publicar, como se a chancela de uma editora fosse a única forma possível de legitimação. A história dos Amigos do Livro mostra que, em certos momentos, a literatura avança por iniciativas menos prestigiosas: uma reunião, uma contribuição, uma gráfica disponível, uma tiragem modesta.

Nos recortes, há também o Drummond já maduro, comentado por críticos e leitores como um poeta que teria saído da ironia inicial para uma compreensão mais ampla do mundo. A fórmula é um pouco simplificadora, mas contém parte da verdade. Sua obra não ficou parada. O poeta de Alguma poesia não é exatamente o de Sentimento do mundo, nem o de Claro enigma, nem o cronista que escrevia para jornais com uma aparente simplicidade que escondia muito trabalho de construção.

Drummond soube ir mudando sem fazer alarde. Foi moderno sem viver da pose do moderno. Escreveu versos de humor, desalento, desejo, indignação e perplexidade. Criou poemas que entraram na fala comum, mas não se acomodou a repetir a própria fórmula. Talvez por isso tenha resistido ao tempo melhor do que alguns contemporâneos mais ruidosos.

Há uma frase sua, dirigida a um jovem escritor, que os recortes recuperam: só se deve escrever quando não for possível deixar de fazê-lo. A frase costuma aparecer como conselho romântico, quase como senha de uma vocação sofrida. Não precisa ser lida assim. Ela também pode ser entendida de modo mais seco. Escrever exige necessidade, mas exige igualmente responsabilidade. Não basta querer publicar; é preciso ter alguma coisa que não se aceite deixar em silêncio.

 

 

 

Drummond teve isso. Teve ainda uma circunstância que os monumentos costumam apagar: fez parte de grupos, dependeu de jornais, trabalhou em repartições, publicou poucos exemplares, enfrentou dúvidas, recusas e limitações materiais. Jamais ganhou dinheiro substancial com a poesia, e apenas depois da aposentadoria, escrevendo crônicas para jornal, teve uma vida materialmente mais confortável, até morrer poucos dias depois de sua filha Julieta, em 17 de agosto de 1987.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário. Editor-executivo do Notibras, edita com Eduardo Martínez o Café Literário, onde escreve a coluna O Lado B da Literatura. É fundador da Editora Fava e autor de A Verdade nos Seres, Território do Sonho e Jardim Secreto, no prelo. Instagram: @prof.danielmarchi

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