Alegria, alegria
É preciso acenar com todas as mãos para o Sol do Brasil
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Um dos poemas mais icônicos do Brasil de todos os tempos, A Canção do Exílio, de Antônio Gonçalves Dias, é uma exaltação romântica à natureza, à saudade da pátria e a uma vida amorosa intensa e conturbada. É o que faço diariamente. Uma das composições mais determinantes do período ditatorial, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, despertou minha total incapacidade de esconder o que sinto e de não silenciar diante do que tenho de dizer. Isso eu não faço.
Também descobri que quem muda de caminho é o trem e que burro velho só morre em terra de gente besta. Alegria, Alegria representa o mais puro sentimento de brasilidade. Deveria ser uma referência para o povo de um formoso país em cuja bandeira está escrito “Ordem e Progresso”. Uma pena que, mesmo já letrado, boa parte desse povo ainda não percebeu o verdadeiro significado dessa legenda. Considerando a máxima de que falando é que se aprende a falar, hoje não leio mais tantas notícias nos jornais.
Ao mesmo tempo em que elas me enchem de alegria e de preguiça, me trazem enorme descontentamento diante da avalanche de mentiras impressas e, agora, veiculadas eletronicamente em sites normalmente de uma nota só. Decidido a me expressar baseado em uma postura de liberdade e de desapego às convenções políticas, pessoais e culturais, também me afastei do sol nas bancas de revista.
Tenho optado por circular entre fotos e nomes de pessoas com caras de presidente, mas que mantêm os olhos cheios de cores e o peito cheio de amores. Como o zero dos homens que só entendem a linguagem do golpismo não diz mais nada, os números favoráveis àquele que caminha celeremente a favor do vento mostram que estou no caminho certo. Nesse sol de quase outubro, sigo sem lenço, mas sempre com documento, buscando incessantemente uma nova canção para me consolar.
Penso em algo como um lá, lá, lá para tocar no rádio e na televisão e que mostre ao povo unido que, com a ajuda dos votos depositados nas impenetráveis urnas eletrônicas, podemos criar um Brasil com livros e sem fuzil, sem fome e sem a idiotice da polarização. Dizem os sábios que o número 7 é o martelo da matemática, que o 8 é um violão sem braço e que o 81 é um violão com o braço do lado. Eu não duvido, mas, até prova em contrário, meu número da sorte é outro. Por isso, lutando para que o Brasil deixe de ser uma república generalizada, torço para que as espaçonaves e as guerrilhas se transformem em Brigitte ‘s Bardot ou em Cardinales bonitas antes de tocarem o chão.
E por que não? Por que não? Propondo grandes beijos de amor, mesmo sem nada nos bolsos ou nas mãos, eu quero seguir vivendo sem pensar em casamento com um único político. Entretanto, como sei que uma enxada cara não é a mesma coisa de uma cara inchada, que mais vale um galo no terreiro do que dois na testa e que música é um substantivo feminino, eu vou seguindo o vento até o fim com minha Alegria, Alegria. Quem sabe eu ainda consiga ver as mãos direita e esquerda acenando simultaneamente para o sol do Brasil, que é tão bonito e nasce para todos. E por que não? Por que não?
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras