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Diferente

E, SE EU TIVESSE RABO?

Publicado

Autor/Imagem:
Hannah Carpeso - Foto Francisco Filipino

Cheguei. Assim pensei no primeiro momento.

Caminhei pela trilha entre folhagens, avistando ao longo e abaixo o litoral de uma praia. Meu primeiro ímpeto foi correr para as águas cristalinas.

O céu, nu de nuvens, alinhava no horizonte com o mar cobalto espremido entre o anil e o turquesa; espumava o branco da paz.

Do alto, apressado, escorreguei entre folhas abandonadas ao chão fugindo dos gravetos pontiagudos que as solas dos pés sofriam – machucadas.

O alivio chegou quando pisei na areia fina e macia. Um carinho após o caminho geográfico.

Mergulhei impiedosamente, rasgando a água com meu corpo suado.

Deleitei-me ao aprofundar a cabeça, e dei de encontro com a cara zangada de um peixe assustado.

Sensação de plenitude, ignorando ser solitário.

De volta, ao piso macio e seco, percebi-me observado.

Um zumzumzum… Parecia voz inaudível à compreensão. Fui cercado por uma gente que como eu buscava entender a situação.

Em mim, as mãos ousavam tocar-me e, atônito percebi que a semelhança se distanciava ao vê-los virados de costas.

Sim. Eles tinham rabos. Eram pelo menos uns vinte.

Rodeavam inquietos a minha pessoa. Tínhamos o bom senso do respeito.

Somente os olhos intrigados me reviravam. Demorei a entender o bailado dos rabos.

Uns enrolados, outros entre as pernas, outros, abanavam nas costas de um lado ao outro.

Percebi em segundos, que sentiam falta do meu rabo. Como eu, o corpo, não mostrava diferença.

Percebi a comunicação primitiva ou linguagem que ainda não me fora apresentada

Sorri.

Uma bela jovem aproximou-se.

Logo fui disputado por outra menos bonita, porém forte e, pareceu-me a líder. Comecei a perceber que o rabo era a forma de comunicação.

A líder mantinha seu rabo erguido como um estandarte.

As mulheres abanavam o rabo quando curiosas, os homens mantinham seus rabos controlados: ora enrolados ora alongados. E, as crianças aparentemente medrosas guardavam entre as pernas – seus rabos.

Fui virado e revirado muitas vezes; buscavam em mim – o rabo. O fato de não tê-lo exigiu uma reunião do Conselho.

Fui mantido refém, todavia cuidado.

Virei um símbolo apurado e fui chamado de “O desrabado.”.

À noite recebi a visita de um grupo que ousou procurar em mim – o rabo.

Fiquei estarrecido por ser tratado como cobaia – vi-me rato em uma caixa – a ser observado.

Passada a semana, acostumei-me ao habitat.

Também deixei de ser atração por falta do rabo, e convivi na aldeia em paz.

Aprendi aos poucos a linguagem dos rabos, e assim até tentei criar para mim um enxerto com folhas de palmeira trançadas.

Pior o efeito do que a realidade.

Acabei por ser aceito sem o rabo e permitiram minha aculturação.

Na praia, enquanto eu nadava com os braços, eles usavam os rabos. Para subir nos coqueiros, eu usava as pernas trançadas e eles seguravam-se nos rabos. Lembrei-me dos macacos.

À noite, na reunião da aldeia, rabos batiam palmas, rabos se afetuavam, rabos se disputavam e até rabos copulavam. Tentei observar detalhes de como diferente de mim, os rabos fazendo amor.

Em um momento de tensão, um homem rabudo se aproximou. Com o rabo estendido ameaçou enrabar-me por sentir-se traído pela sua parceira, que de mim não despregava os olhos.

Diante daquela enorme espada de carne, vi-me impotente e desprotegido. Não fosse a líder e seu estandarte, eu não estaria aqui escrevendo.

E assim protegido, também passei outros perrengues. A própria líder interessada queria provar o diferente.

E, decidida, insatisfeita, confabulava um rabo a ser implantado em mim.

E foi exatamente naquele momento, que despertei do pesadelo que me manteve presente naquela ilha – diferente. – onde rabos falam por gente.

Pulei da cama, fugindo e instintivamente passei minha mão na bunda. Suspirei aliviado, porque não encontrei rabo nenhum.

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