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Efeito Milei

Economia melhora, mas o poder derrete rápido

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Campanha e governo não são a mesma coisa. E o eleitor, ainda que muitas vezes levado pelo impulso no momento do voto, percebe essa diferença com rapidez quando a realidade se impõe.

O caso de Javier Milei é emblemático. Ele chega ao poder com um discurso disruptivo, inflamado, quase performático, ancorado na rejeição ao sistema político tradicional e na promessa de um choque de ordem econômica. E, sob o ponto de vista técnico, entrega parte relevante do que prometeu: queda consistente da inflação, ajuste fiscal e sinais de reorganização da economia.

Mas governo não se sustenta apenas em indicador. Sustenta-se em percepção.

A Argentina que começa a estabilizar seus números não é, ainda, a mesma que sente melhora no cotidiano. O ajuste cobra seu preço, sobretudo no curto prazo, comprimindo renda, alterando padrões de consumo e gerando uma sensação difusa de que o sacrifício é imediato, enquanto o benefício segue abstrato. Esse descompasso entre dado e vida real é o primeiro ponto de tensão.

O segundo está no próprio estilo. O discurso que mobiliza na campanha nem sempre traduz segurança no exercício do poder. O excesso, que antes era lido como coragem, passa a ser interpretado como instabilidade. A retórica de confronto, eficaz para conquistar voto, mostra limites quando o que se espera é previsibilidade.

É nesse cruzamento que a política começa a cobrar a conta.

A história recente oferece exemplos suficientes de lideranças que chegaram ao poder impulsionadas por discursos fortes, muitas vezes com resultados econômicos defensáveis, mas que não conseguiram transformar isso em recondução. Não por ausência de entrega, mas por incapacidade de ajustar a linguagem, o método e a relação com a sociedade ao novo papel que passaram a exercer.

Porque, no fim, o eleitor não avalia campanha. Avalia governo.

E governo exige mais do que razão econômica. Exige tradução social do resultado, coerência entre discurso e prática e, sobretudo, a percepção de que quem decide compreende a realidade de quem vive o efeito das decisões.

Quando esses elementos não caminham juntos, o resultado pode até aparecer nos números. Mas não aparece nas urnas.

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