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Brasil

Efeito colateral do isolamento e a sina de Gregor

Ka Ferriche

Um relato que vem da bela cidade pernambucana de Olinda chama a atenção pelo drama revelado. Uma senhora de 72 anos, aposentada e moradora solitária, que enfrenta o confinamento exigido pelo novo coronavírus, nos remete à obra de Franz Kafka, A Metamorfose. Há mais de cem anos, o autor, por meio de uma metáfora que se tornou um clássico da literatura, conta a história de um caixeiro viajante que acordou em forma de um enorme e repugnante inseto. Tipo uma barata gigante. A família o isolou no quarto, onde recebeu alguma atenção inicial. Aos poucos, a sua presença ali passou a causar desconforto, produzir constrangimentos aos familiares, depois repulsa, até a sua morte no mesmo quarto de onde haviam sido retirados todos os móveis.

Inspirados na obra, sem qualquer pretensão de criar paralelo às nomenclaturas existentes no universo acadêmico do comportamento, vamos chamar a análise do que está acontecendo de Síndrome de Gregor, nome do personagem de Kafka, que virou inseto. Gregor Samsa era o provedor da família e a sua metamorfose e impedimento de sair para trabalhar, provocou uma das principais mudanças: os membros da família que nada produziam foram obrigados a encontrar ofício para a subsistência da casa. O mais importante, entretanto, foi a evolução de seu isolamento pela família.

No relato daquela senhora de Olinda, ela afirma que seus familiares que estão abastecendo sua geladeira de mantimentos, deixam as sacolas na porta de seu apartamento, tocam a campainha e saem antes que ela abra a porta. Não ficam nem para um sorriso distante. É muito provável que milhares de pessoas solitárias, antes independentes, que caminhavam sozinhas ao comércio para as compras, estejam vivendo no Brasil a Síndrome de Gregor neste momento.

A visita relâmpago e invisível de filhos e netos pode ser também interpretada como um ato de amor, de precaução. Mas a nossa Síndrome de Gregor vai além nessa análise. Até quando e quanto esses atos de carinho vão resistir ou fazem bem? Kafka propõe reflexão semelhante.

No Século VI a.C. acreditavam que os navegantes fenícios, em suas andanças, disseminaram a lepra, como era conhecida a doença, depois rebatizada de hanseníase, quando em 1873 Armauer Hansen identificou a bactéria que dava o pior dos destinos aos enfermos desse mal: o absoluto isolamento e exclusão social. Claro que é um paralelo exagerado. Naqueles tempos, tanto dos fenícios quanto de Hansen, não existiam Netflix nem atores globais dando tchauzinhos eletrônicos para os telespectadores, gravados em suas mansões, afirmando que é muito divertido ficar compulsoriamente isolados em casa.

Convenhamos, na Idade Média também não existia o SUS, prova de que tudo na vida pode ser pior. A disseminação deve igualmente ser observada. Os fenícios eram mercadores dominantes. Os entregadores atuais que distribuíram a peste corona nos continentes são igualmente dominantes, pertencentes às classes sociais privilegiadas, circularam nos principais aeroportos mundiais a bordo de jatos de todos os tipos, habituados a promover farras regadas a Dom Perignon. Isso mesmo, o delivery do corona ficou a cargo dessas celebridades.

Agora a bomba vai cair no colo de famílias cujo isolamento terá que ser coletivo. Muitas vivem com oito, dez indivíduos, em um único cômodo. São pobres, desprovidos de qualquer possibilidade de isolamento individual. Serão isolados pelo sistema em grupos, provavelmente onde todos estarão contaminados. Na teoria, a mídia vai tratar de forma politicamente correta, com compaixão. Na prática, serão considerados seres vindos da era dos fenícios, serão isolados até a morte. Não haverá ninguém tocando a campainha para deixar mantimentos às suas portas. Nesse caso, o psicológico nem será considerado.

No caso de Olinda, o drama é diferente. Aquela senhora quer apenas um sorriso, mesmo que seja do fim do corredor. Não temos Cristo em cada esquina promovendo a “limpeza” do mal, como aconteceu, segundo o Novo Testamento, quando um leproso foi por Ele curado. Precisamos avaliar se muitos senhorezinhos e sonhorazinhas de Olinda estão sofrendo mais pela Síndrome de Gregor do que pelo temor do Covid 19. Por um simples sorriso de um filho, ainda que distante, talvez alguns preferissem sucumbir felizes mesmo que atingidos pelo mal que veio do Oriente…

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