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Abaixo a vigarice

Eleitor fica com nariz de palhaço no circo chamado Congresso Nacional

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Lula Marques/ABr

A vida é cheia de contradições e decepções. Perdi esses dois últimos dias acompanhado o meu, o seu, o nosso Congresso Nacional. Temos de saber conviver com isso. O nosso dia a dia é uma caixinha de surpresas. Por isso, seguindo os conselhos do poeta Paulo Vanzolini, levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Um passo de cada vez. Até meio passo serve quando a roupa que estou usando não é a da sorte. Simples assim? Nem sempre. O primeiro passo é nunca esquecer daquela velha máxima da boa convivência: se não praticar, o bicho vai pegar, a mulher vai nos largar, o Ricardão pode nos usar sem avisar e ninguém mais vai votar.

Como escolhemos deputados e senadores inconfiáveis, se precisar cague nas calças para ter confiança. É bom lembrar diariamente que a vontade de fazer xixi é inimiga da perfeição. Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças. Por isso, crie seu próprio lema de vida: não vote em vigaristas. Depois de aprender que, embora seja feito de carne, tenho de viver como se fosse feito de ferro, nada melhor do que a certeza de que algumas diferenças não fazem a menor diferença. Como disse Cazuza, eu estou vivo. Esse é o meu espetáculo.

Tudo isso para dizer que viver é desenhar sem borracha e escrever com lápis sem ponta, exatamente como fez o “depravado” escritor francês Marques de Sade e como fazem nossos parlamentares. Acusado de praticar crimes de luxúria contra a sociedade francesa do século XVIII, Sade era quase um santo. Do pau oco, mas um santo. Ele passou a maior parte de sua vida na prisão, onde escreveu a maioria de seus livros. Um deles (Os cento e vinte dias de Sodoma), escrito em 1785, foi copiado em um rolo fino de papel, com 12 metros de comprimento.

O texto só foi encontrado em 1904 e qualificado como “um longo catálogo de perversões”. Diziam que sua obra atentava contra a moral e os bons costumes da época em que viveu, nos anos 1700. Estamos em 2026 e o que há de diferente entre Sade e os políticos brasileiros, os quais usam, na entrada e na saída, o mesmo rolo de papel higiênico repetidas vezes? Absolutamente nada. A diferença é que nossos homens públicos continuam soltos e usando dinheiro público, papel Neve, normalmente de folha tripla e financeiramente picotada no centro.

Adeptos da tese de que quem navega sem parar e sem enjoar acaba dando em alto mar, nossos politiqueiros não admitem estranhos no play. Acham que o circo denominado Congresso Nacional é terreno favorável somente para facções e milícias organizadas a partir da ignorância de parte do eleitor brasileiro. Enquanto eles comem Garoto em lugar do Sonho de Valsa, o povão, particularmente o nortista-nordestino, come na Lacta, permanece com os cabelos em pé, o sorriso amarelo, o pinto caído e o nariz de palhaço. É o que sobra.

Vivos ou mortos, as excelências brigam pelo poder sem qualquer preocupação com o sofrimento dos que entraram de gaiato no navio. As duas casas de facilidades e os palácios nacionais, estaduais e municipais fazem parte do sonho de consumo daqueles que só pensam no próprio umbigo. Roubam, não fazem e ainda querem ser anistiados quando são pegos em flagrante delito. Para os demais mortais, é O’Habes et underpaid, isto é, lascados e mal pago.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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