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Convescotes e intrigas

Elias e o teatro da vida

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Sujeito rabugento, Elias era chegado a intrigas, por mais tolas que fossem. Também apreciava promover convescotes, tomando o cuidado de convidar amigos, colegas, conhecidos e alguns praticamente desconhecidos, cujos pensamentos, de certo modo, lhe eram convenientes. Veja bem, meu amigo, tais pensamentos não eram necessariamente congruentes com os do Elias, mas eram apropriados para que ele assistisse, de camarote, a embates entre os convidados.

Por conta da fama de birrento do Elias, praticamente ninguém dirigia queixumes em sua direção. Desse modo, os embates calorosos eram disputados entre os convidados, enquanto o anfitrião gargalhava por detrás da máscara carrancuda. Ninguém percebia tamanha desfaçatez ou, então, levavam no bolso o silêncio da apaziguação.

Para quem acompanhava a trajetória de intrigas do homem, certamente se lembrava do dia em que Alberto e Mauro, dois notórios rivais da política da cidade, foram estrategicamente colocados em uma mesa ao centro. Elias, cínico que nem ele só, fez questão de cumprimentar os dois com calorosos abraços e breve, mas não tão sutil assim, comentários ao pé do ouvido. Estava lançada a semente da discórdia, que começou a germinar assim que o dono da residência deu as costas para ir conversar com os demais convidados.

Entre insinuações e trocas abertas de farpas, Alberto e Mauro precisaram ser contidos por aquela providencial turma do deixa-disso. Elias, artista dos bons, fazia cara de consternação, como se tivesse sido pego de surpresa.

— Meus amigos, por favor, estamos aqui para confraternizar. Vamos, vamos, deixem as divergências políticas de lado. Vamos, vamos, por favor, apertem as mãos.

Contrariados, os dois sujeitos fizeram uma trégua, mesmo que temporária. E o sorriso, agora quase franco, estampava o rosto de Elias, que caminhava triunfantemente entre os demais presentes.

Houve também o imbróglio entre os gêmeos Magalhães, cuja fraternidade parece que era desconhecida desde os tempos da maternidade. Que nem gato e rato, as cicatrizes dos irmãos eram visíveis até para o cego que esmolava na esquina. E não havia modéstia na hora das contendas, já que qualquer assunto era motivo para discórdia.

Elias, ah, o Elias, esse provocador da paciência alheia, desprovido de pudores tão comuns a todos nós, não só convidou o Fabiano, como também o arqui-inimigo, o Fabrício, para os festejos do seu septuagésimo aniversário. Como os gêmeos deviam certa reverência ao coroa, não tiveram como refugar do convite. O que não contavam é que seriam colocados estrategicamente um de frente para o outro na mesa que oferecia o melhor ângulo de visão para o anfitrião, que saboreava um licor de maracujá.

Fabrício e Fabiano, Fabiano e Fabrício, frente a frente, olhos congestos, grunhidos tortos, todos direcionados às cópias quase perfeitas, como se fossem reflexos. Se a coisa não desandou por completo, foi porque Jurema, que incendiava corações e, por isso mesmo, era o terror das mulheres casadas, foi orientada a se sentar à mesma mesa. Mal se acomodou na cadeira, os irmãos, desejosos por atenção, começaram a paparicar a bonitona.

— Tu quer um refrigerante?

— E eu sou lá mulher de refrigerante, Fabiano?

— Sou o Fabrício.

— Pra mim tanto faz se tu é o Fabrício ou o Fabiano. É tudo igual mesmo.

Apaziguada a situação, Jurema se levantou e foi em direção ao anfitrião, que puxou uma cadeira para que a mulher se sentasse. Fabiano e Fabrício a acompanharam com olhares desejosos, porém desesperançosos. Não tardou, surgiu um brevíssimo interlúdio entre os desafetos.

— Tu é mesmo um bobalhão, Fabiano.

— Eu? Hum! Bobalhão é tu.

— Ou nós dois.

— Nós dois?

— É. Num ouviu a Jurema falar que nós é tudo igual?

Naquele dia, o circo não pegou fogo, já que os dois palhaços, inebriados pela certeza da rejeição, em vez de prolongarem o silêncio, preferiram fazer uma trégua, mesmo que temporária, e curtir o rega-bofe. Elias, que nem criança, observou Jurema por alguns instantes, segurou a mão da mulher, que se sentiu parte daquele teatro. Não estava errada de todo, mesmo que ela não fosse participar do elenco da próxima peça.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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