Sobradinho
Emídio, o juiz da várzea
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Emídio, para apaziguar a frustração por não ter se tornado jogador de futebol, encontrou um caminho para fazer parte do show e, assim, se tornou juiz de várzea na região de Sobradinho, no Distrito Federal. Como sua saudosa avó dizia, se você não tem cão, caça com gato, mas se o bichano lhe faltar, amarre um pedaço de linguiça na ponta de um barbante, que vai dar no mesmo. Se isso era ou não plausível de consideração, o sorriso no rosto do sujeito parecia não se importar, ainda mais porque desde molecote aprendera que as avós podem até inventar muita coisa, mas jamais mentir.
Árbitro, alguns empertigados faziam questão de corrigi-lo. Emídio, que preferia a paz a buscar imbróglios com rusguentos de última hora, fingia aceitar de bom grado tal lembrança, mesmo porque há tempos aprendera com um certo Aires, que preferia o silêncio e o sorriso à disputa. Que os embates ficassem dentro de campo, onde ele era a autoridade máxima, alheio aos democráticos xingamentos vindos de todos os lados, muitos dos quais direcionados à sua honesta genitora.
Aconteceu na final do campeonato de futebol amador da cidade. Impecavelmente vestido de preto de cima a baixo, apito firme na boca, Emídio apontou para a marca mais controversa da grande área. Penalidade máxima! E os protestos surgiram da parte da torcida e do time do zagueiro Tonhão, que usou a costumeira brutalidade contra o habilidoso Ricky Ricardo, que gingou o corpo de um lado, gingou para o outro, talvez se imaginando o próprio Garrincha. Foi aquela pancada certeira na canela, que tirou o craque da partida.
Inconformados com a marcação, a pequena multidão invadiu o campo e foi aquela pancadaria generalizada. Ninguém mais sabia em quem era para bater ou de onde os pontapés e sopapos poderiam chegar. Besta que não era, Emídio tratou de sair de fininho antes que a sua integridade física fosse violada por algum sujeito desgostoso.
O campeonato não foi decidido em campo e, por mais esdrúxulo que aquilo fosse, acabou no tribunal. E lá se dirigiram os envolvidos para o tribunal, agora em frente a um juiz de verdade, que iria, finalmente, decidir aquela pendenga. Mas não pense você que a coisa foi tão simples assim, pois os insatisfeitos tomaram conta do fórum.
O juiz togado, percebendo que precisava colocar ordem na casa, bateu o malhete com força.
— Silêncio!
Enquanto a algazarra se esvaía, eis que o Emílio, que estava sentado na primeira fileira destinada ao público, se manifestou.
— Pois é, eu te entendo. Nós, que somos juízes, muitas vezes precisamos tomar decisões no calor do momento.
O juiz de verdade logo sentiu empatia por seu suposto par e, então, o convidou para se aproximar.
— Colega, você é juiz de qual vara?
— Não é vara, nobre colega. É várzea.
O constrangimento se instalou de vez e, apesar de tanto tempo decorrido, ainda hoje o campeonato de 1997 não foi decidido. Mas que foi pênalti, ah, isso foi, ainda hoje o velho Emídio faz questão de afirmar categoricamente o velho. Há pouco, ele aposentou o apito e pode ser encontrado na Banca do Guima ou na Oficina Magnu, onde costuma relembrar os causos vividos e, principalmente, os inventados.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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