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Capitão das milícias

Enlutado, Brasil veste mundo de luto com mortes de Don e Bruno

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Foto/Imagem:
Marina Amaral - Diretora Executiva e Editora da Agência Pública/Foto de Arquivo

Escrevo, como vocês, de luto pelo trágico desfecho do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira no rio Itaquaí, Vale do Javari, Amazonas, no dia 5 de junho. A perda de um indigenista corajoso e um jornalista talentoso, ambos importantes para a defesa dos indígenas e da Amazônia, vem acrescida da revolta pela forma que morreram: assassinados em uma emboscada por pescadores ilegais, pelo que sabemos até agora, e em uma região tão abandonada pelo Estado que o presidente da República, responsável pela segurança nacional, considera uma “aventura” que dois profissionais estejam ali para realizar o seu trabalho.

Acontece que a mesma região é o território de seis etnias indígenas diferentes e abriga a maior concentração de indígenas isolados do mundo. E se trata de uma área em conflito, como sabem ou deveriam saber as autoridades brasileiras. Desde 2021, como relatou a nota da Univaja, que a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, e a Funai – que por sinal é presidida por um delegado da Polícia Federal – vêm recebendo ofícios dos indígenas documentando invasões e ilegalidades na Terra Indígena Vale do Javari. Entre eles “a composição de uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes, que ingressam ilegalmente em nosso território para extrair nossos recursos e vendê-los nos municípios vizinhos”, como descreve a nota.

De lá para cá, nada foi feito. Ou melhor, foi feito o contrário, como sabemos os que acompanhamos o desmonte da Funai, os atos e discursos do presidente Bolsonaro contra os direitos indígenas e a proteção do meio ambiente, a cumplicidade do governo e a impunidade dos criminosos – como prova o assassinato de outro indigenista Marxciel Pereira, em 2019, sem que ninguém tenha sido preso. Isso tudo é combustível para que essas quadrilhas continuem operando.

Se foram feitas prisões e se chegou ao local dos corpos de Dom e Bruno em 11 dias, único fato notável, o mérito é todo dos indígenas que fizeram uma busca incansável, praticamente sozinhos nos primeiros dias, e também eles que localizaram a área que posteriormente se tornou alvo das instituições que estavam presentes na patética coletiva que comunicou o “bom resultado” da operação: Polícia Federal, Polícia Civil, Marinha, Exército e Corpo de Bombeiros.

Como notou uma jornalista estrangeira, na coletiva realizada a mais de mil quilômetros de Atalaia, onde se concentrava a imprensa nacional e internacional, nenhum representante indígena foi convidado para o evento, embora tenham sido eles os verdadeiros responsáveis pelas descobertas.

Além de serem fontes mais confiáveis. O desencontro das informações, com offs da Polícia Federal durante toda a quarta-feira, o açodamento da embaixada brasileira em Londres ao comunicar erroneamente a família de Dom Phillips dois dias antes sobre a localização dos corpos, com detalhes mentirosos e mórbidos, nada disso nasceu na área das buscas conduzidas pelos indígenas. Não se ouviu da boca deles uma informação falsa nem apressada que pudesse magoar ainda mais as famílias, e todos que torciam pela vida de Bruno e Dom.

Aproveito para agradecer à equipe da Pública, que permaneceu o tempo todo no local dos fatos, sempre comunicados com rigor e sensibilidade durante esses dias dolorosos. Ciro Barros, Rubens Valente, Avener Prado e José Medeiros – e também o editor Thiago Domenici – estão entre aqueles que não se intimidam e se dedicam inteiramente a realizar sua missão como jornalistas, que também é a de defensores de direitos humanos.

Contamos com cada um de vocês para continuar a investigar e denunciar aqueles que ameaçam a vida dos povos originários e das comunidades tradicionais da Amazônia, como fazemos na Agência Pública desde sua fundação. Estejam eles na floresta ou nos gabinetes de Brasília, não vamos deixar passar. Agora também por Bruno e Dom.

P.S. – Notibras também vestiu-se de preto.

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