NOITE CARIOCA
ENTRE A LAPA E O ÚLTIMO TREM, O SAMBA PROCURA UMA CAMA
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A primeira coisa que vi ao acordar foi o olhar desejoso da companheira que despertava ao meu lado.
Tive sorte naquela noite. Depois de tocar por horas em um dos inúmeros bares da Lapa, no Centro do Rio, ganhei o convite de uma mulher que passou o samba inteiro me paquerando para passarmos a noite juntos. Dessa vez, fiz a escolha certeira da musa da noite.
Me chamo Júlio Carlos, conhecido pelos amigos e nas rodas de samba como Juca. Não sou um simples músico, mas um apaixonado por samba desde garoto, quando acompanhava meu pai nos bares da vida. Meu pai e eu sentávamos e, enquanto ele bebia e relaxava ouvindo seus sambas queridos, eu tinha passe livre para tomar todos os refrigerantes e comer os doces que eu quisesse. Grandes lembranças que formaram quem sou hoje.
Crescendo nesse meio da boemia carioca, pela influência de meu pai aprendi a tocar alguns instrumentos e, conforme crescia e ficava rapaz, entrei de vez no mundo do samba.
Toco de tudo um pouco e sou bom no que faço. Ainda garoto, começaram a aparecer propostas de trabalho, sempre em bares no Centro do
Rio ou Zona Sul. Moro em Japeri. Meu caminho até chegar no trabalho não é mole! De casa levo uns 20 minutos comendo poeira num chão de terra batida, pego a Kombi até a estação de trem. Daí até o Centro do Rio cruzo com toda a sorte de gente, trabalhadores de variadas espécies, camelôs vendendo de tudo, religiosos cantando louvores para ninguém poder minimamente encostar a cabeça e cochilar. Mas, apesar das dificuldades, são pessoas felizes, com suas esperanças, em busca de uma vida melhor. Por sorte, nesse meu trabalho noturno não enfrento aquela hora do rush intensa.
Ao final de cada roda de samba, a grana é curta e o cansaço é grande. Certa vez, só por diversão, investi meus olhares e meu sorriso mais encantador em uma morena de olhos tristes. Ela estava com algumas amigas, não parecia muito animada. Eu também não estava buscando romance, tampouco amor verdadeiro. Minha meta é bem simples: uma cama para me recostar com uma mulher desejável, sem precisar encarar a dura realidade de voltar para casa. Naquela noite, a morena de olhos tristes foi a minha musa.
Enquanto a energia do samba pulsava nos corações, regado a cerveja e caipirinha, eu lançava meu olhar sedutor na direção dela que, inicialmente, fingia não notar, mas em pouquíssimo tempo estava retribuindo meu olhar e dando risadinhas. Percebi naquele momento que ali eu poderia avançar.
No pequeno intervalo do samba, dei minha investida, fazendo uma brincadeira idiota para quebrar o gelo.
“Oi, tudo bem? Posso te oferecer um pouco do meu samba particular, ou seria melhor um jazz?”
A morena se chamava Mariana. Aparentando estar mais relaxada, falou: “Vim sambar, vamos nos manter no samba”.
“Claro! E sou do tipo que trata bem as musas do samba.” E assim, em meio a risadas, voltei a tocar e a noite tomou seu rumo: Mari, a morena, ficou até o final. Certamente me esperando.
Tomamos umas bebidas, conversamos, trocamos alguns beijos, nos entendemos. Querendo impressioná-la e também fazer bonito, deixei-a em casa. Mariana morava com uma amiga que estava em viagem com o namorado, deixando o apartamento liberadinho para viver suas fantasias de ocasião. E eu, pobre miserável que sou, não conseguia deixar de pensar na economia de tempo e dinheiro que teria se ela me convidasse para subir. Dormindo ali, eu me livrava da viagem de volta e, no dia seguinte, começava tudo menos cansado.
Como eu já meio que previa, Mariana me convidou para subir. Foi uma noite boa, não maravilhosa.
Depois disso, seguimos saindo por um tempo. Acabei me apaixonando por ela. Cheguei até a cogitar um namoro mais sério. O problema é que, por não morar sozinha, Mariana nem sempre podia me receber em seu apartamento, e eu não tinha bala na agulha para bancar hotel. Comecei a cobrar que ficássemos mais juntos, dizendo que ela também era dona da casa e podia, sim, me receber quando quisesse. Gostando de mim ou não, Mariana não cedeu às minhas súplicas. Dizia que não havia razão para pressa, que era melhor irmos devagar. Tinha saído havia pouco de uma relação, queria respirar, estudar, cuidar de si. Namorar, talvez, mas sem essa obrigação de dormir junto todo fim de semana.
Mulher é assim, reclama que homem não presta, mas é aparecer um bom que diz não estar preparada.
Bom, cada um sabe de si. Antes, só queria uns amassos e lugar para me encostar vez ou outra, mas ficar um tempo com Mariana me mostrou que poderia desejar mais, querer mais da vida. Hoje, meu desejo é conseguir ficar num local perto do trabalho nos finais de semana, e quem sabe, se o universo me sorrir, darei tchau para Japeri e para o trem cheio para sempre.
Na vida de um sambista boêmio, o amor até pode aparecer. Mas descanso continua sendo assunto sério.
E assim, mais um fim de tarde chega na Lapa. Volto ao trabalho, preparando-me para uma nova noite de samba e para a minha próxima musa.
Que ela seja abençoada, alegre e madura, sem restrições para receber o namorado em casa e, de preferência, é claro, moradora das redondezas. Que valorize o amor em uma cama quentinha e uma boa noite de sono junto de seu sambista!
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Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psicóloga clínica no Rio de Janeiro, é autora de “As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo” (Ed. Ases da Literatura, 2024), e colaboradora do Café Literário.