Vorcaro e Escovão, os master-chefs
Entre fumaça e fogo, a trincheira da verdade
Publicado
em
A campanha eleitoral ainda ensaia seus primeiros passos nas ruas do Distrito Federal, mas nos bastidores, o jogo, que não é para amadores, já começou. E como em toda eleição, envolve dinheiro, claro. O Palácio do Buriti sabe disso. Porém, como vive no sufoco para tapar um poço sem fundo do rombo no BRB e no próprio orçamento que se acaba de descobrir deficitário em alguns bilhões de reais, decidiu cortar custos. Contudo, no silêncio aparente, esse verniz de prudência institucional esconde uma movimentação febril de pré-candidatos que, como insetos vítimas de devastadores inseticidas, correm atrás de credibilidade jornalística, algo mais escasso em Brasília, que votos.
O alvo dos cortes financeiros é a chamada mídia independente, que não tem padrinhos milionários, nem contratos antecipados travestidos de publicidade institucional, muito menos compromissos subterrâneos com cofres que cheiram a mofo e a investigações em andamento. São portais e sites que sobrevivem mais pela reputação do que pelo faturamento. Tornaram-se, assim, o novo eldorado político, mesmo que vítimas de um escovão que, por ser sujo, jamais poderá ameaçá-los.
Nos corredores, o cochicho é direto. Os candidatos começam a entender ser melhor colar a imagem em quem ainda respira jornalismo do que afundar junto com quem negocia manchetes como quem vende lote em terreno alagado. Com quem, numa aliança com Daniel Vorcaro, vira master-chef para tentar lavar a lama acumulada em garoupas que, postas numa balança umas sobre as outras, somam mais de 27 milhões de reais.
O contraponto é conhecido. Veículos abastecidos com recursos generosos, todos claramente suspeitos, seguem operando como verdadeiras fábricas de narrativas descartáveis. Publicam hoje, apagam amanhã. Atacam pela manhã, recuam à tarde. São os que produzem o jornalismo de espuma, que faz barulho mas evapora sem deixar vestígios. Como uma colmeia que some no ar, deixando para trás apenas o zumbido e o mel azedo.
Há de tudo nesse mercado paralelo da informação. São pneus feitos de plástico, castelos erguidos com tijolos frágeis emoldurados como togas mal confeccionadas que desabam ao primeiro sopro da Polícia Federal. Como há também alianças tão improváveis quanto perigosas, costuradas nos bastidores entre quem deveria fiscalizar e quem insiste em ser fiscalizado. São os que usam uma folha murcha na orelha e ainda brindam com gim falsificado.
Enquanto isso, o governo instalado no Palácio do Buriti e suas estatais sinalizam cortes nas verbas publicitárias destinadas justamente aos veículos que ainda preservam alguma liturgia da profissão. Uma ironia que não passa despercebida, já que se retira oxigênio de quem preza pela transparência enquanto se mantém, por vias tortuosas, o balão inflado da desinformação.
E é aí que surgem os primeiros sinais de fumaça. É a existência de um Zé que converge para uma mesma sombra que brilha como o criador da lâmpada, uma figura mitológica grega e um novo centurião nascido na terra dos marechais. Tudo para provar que em Brasília, a capital onde se imagina haver uma metrópole que ainda tropeça em práticas de província, a neblina raramente é só névoa seca. Trata-se de fumaça que costuma ser prenúncio de incêndio.
Diante desse cenário, os chamados independentes resistem, fazendo o que sempre fizeram. Sem artilharia pesada, sem contratos blindados, sem padrinhos de ocasião. Mantêm-se em trincheira aberta, apostando na confiança da notícia, único ativo que não se compra em licitação nem se negocia em gabinete.
E é nesse ponto que a velha máxima ressurge, não como slogan publicitário, mas como manifesto silencioso. Como dizia o tigre, quem não é o maior, precisa provar todos os dias que é o melhor. E no tabuleiro que se desenha, onde verbas publicitárias são disparadas como bombas mal calibradas, há quem se intimide. Mas há também quem permaneça de pé, por entender que explosões sem direção não derrubam quem construiu suas bases sabendo ter caminhado em rocha firme.
Como no Oriente Médio das manchetes recentes, o barulho pode ser ensurdecedor. Mas nem toda explosão altera o equilíbrio do campo de batalha. Em Brasília, a guerra é outra. E a trincheira da verdade, ainda que estreita, continua sendo o último refúgio de quem se recusa a negociar a própria voz. Mesmo porque, conforme ouviu-se na conversa na sombra que abraçou Zé, o criador da lâmpada, o Minotauro e o centurião alagoano, cortes são admitidos. Desde que não discriminados, não seletivos.
……………….
José Seabra é CEO fundador de Notibras
