Verbo imperfeito
Entre o agora e o quase
Publicado
em
A cidade acorda
antes de mim.
Os ônibus bocejam fumaça,
os prédios piscam seus olhos de vidro
e alguém varre a calçada
como quem tenta organizar o mundo.
Carrego no bolso
um tempo quebrado:
mensagens não enviadas,
nomes que ainda doem
quando passam pela boca.
O café esfria
enquanto penso
que viver é esse verbo imperfeito,
sempre no gerúndio:
tentando, seguindo, respirando.
No semáforo,
uma mulher vende balas
e esperança no mesmo gesto.
Sorrio sem saber se é culpa
ou reconhecimento.
Há dias em que o país pesa
dentro do peito,
como uma notícia mal lida
ou um hino esquecido.
Mas ainda assim,
uma criança ri no banco de trás do ônibus
e isso salva a manhã.
Aprendi que amar
não é fogo de artifício,
é lâmpada acesa na cozinha,
é prato lavado junto,
é silêncio que não machuca.
À noite,
o céu insiste em existir
apesar da poluição e do cansaço.
As estrelas fazem resistência
em pontos mínimos de luz.
E eu,
feito o Brasil de todos os dias,
caio, levanto, improviso,
planto afeto em terreno duro
e sigo,
porque seguir também é uma forma de fé.