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Luciana e Rubens

Entre os discos do TNT e o aquário do tio Ademar

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

— Será que a gente consegue continuar?

Luciana me perguntou de modo tão singular que me deixou desconcertado, como se toda a responsabilidade caísse sobre os meus ombros. E eu, que fui para aquele encontro com o intuito de colocar um ponto final na relação de quase cinco anos, estava ali, estático, olhos arregalados, tentando parecer normal, como se a minha única preocupação fosse lembrar se dei ou não comida para os peixes do aquário herdado do tio Ademar.

— O que foi, Rubens?

O som áspero de Luciana me arrancou do devaneio em que eu pretendia ficar, muito mais confortável do que aquele confronto. Será que eu havia dado sinais de rachaduras no nosso caso? Caso? Não era um simples caso, mas algo que foi de tórrido até que esfriou e, quando percebi, estava imerso em uma banheira que me provocava calafrios. Como aquilo aconteceu? Por que relacionamentos acabam, quando imaginamos serem para toda a eternidade? Eis que me pego lembrando Vinicius: “que seja eterno enquanto dure”. Cinco anos, cinco longos anos, tão breves, tão…

— Se você não se importar, quero ficar com os discos do TNT.

— O quê?

— Tudo bem, se você quiser, pode ficar, Rubens.

— Ficar com o quê?

— Olha, não dá mais. Você nem sequer me escuta.

Não discordo, muitas vezes estou absorto com coisas do trabalho, com minha mãe, muitas contas para pagar, reuniões de condomínio, nada muito urgente, mas que me tomam tempo. A verdade é que sou desorganizado ou, não descarto, me faço assim para me esquecer. Será que tenho alguma chance?

— Desculpe, meu amor.

— Amor? Que piada é essa agora, Rubens? Você dá mais importância a esse peixe do que ao nosso relacionamento.

Peixes, cinco ou seis. Creio que são cinco, isso mesmo. Ou seriam quatro? Não importa, são peixes e não peixe.

— E sabe de mais uma coisa, Rubens? Tu nem notou que pintei o cabelo.

Luciana está loira. Mas ela já estava assim há pelo menos um mês. Não, castanhos claros ou escuros. Sim, talvez um tanto escuros, quase pretos.

— Gostei.

— Gostou? Tu é um cínico, Rubens José dos Santos Vieira.

— Você fica bem assim… loira.

Preciso lidar com aqueles enormes olhos castanhos, que me fuzilam sem qualquer piedade. Congestos pelo fluxo sanguíneo, eles se tornam avermelhados.

— Desculpe, Luciana, não estou bem.

Toco a face de Luciana, levo os dedos aos lábios.

— Salgada.

— O que é salgada, Rubens?

— A sua dor.

Luciana e eu nos abraçamos. Será que coloquei comida para os peixes do tio Ademar?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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