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Dilúvio Íntimo

ENTRE RELÂMPAGOS E ÔNIBUS, A ÁGUA REVELA O HOMEM

Publicado

Autor/Imagem:
Renan Damázio - Francisco Filippino

RUÍNAS LÍQUIDAS

A cidade boia em ruínas líquidas.
Estou suspenso no ventre cansado do ônibus.
Os faróis dissolvem-se em névoa,
Como astros fatigados de iluminar abismos.

As ruas, pobres veias da matéria,
Transbordavam silêncios e detritos.
O céu, entre relâmpagos pálidos,
Parece confessar antigos delitos.

A água desce sem clemência ou pressa.
Limpa dos homens a fumaça e o cansaço.
Deixo que ela me tome por inteiro.
Não ergo defesa, sem recuar um passo.

As roupas coladas ao corpo são penitência.
Frio morno de quem já perdeu o medo.
Há dignidade estranha em se render ao tempo.
Deixar o mundo invadir nossos segredos.

Viver é isso.
Atravessar enchentes invisíveis.
Carregar nos ombros dilúvios cotidianos,
Ter firmeza diante dos irreversíveis.

Enquanto a cidade afunda lentamente,
Sob o brilho espectral daquela cerração.
Permaneço imóvel, encharcado e desperto.
Enfim compreendo a própria condição.

Não foi a primeira vez.
Nem será a última.
Há tempestades que retornam porque nos pertencem.

Assim aceito, sem revolta ou abrigo.
O peso da água e o céu sobre mim caído.
Aceito de bom grado,
O divino banho recebido.

……………

Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.

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