Números inflados
Errar é humano, mas no caso das pesquisas eleitorais, parece complô
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De acordo com as normas básicas do bom jornalismo, não se deve começar qualquer tipo de texto com o vocábulo não, isto é, de forma negativa. Da mesma forma, não é de bom alvitre para nenhum órgão de imprensa torcer publicamente a favor de um e contra o outro. Normalmente por questões financeiras, é comum a mídia impressa ou eletrônica se posicionar como oposição a esse ou aquele governo. Estranhamente isso ocorre a partir da metade da gestão, quando se tornam públicas as manifestações contrárias ou favoráveis da sociedade.
Embora alguns estranhem, faz parte do jogo. Basta o governante se reeleger e tudo volta à normalidade. Nesse momento em que se afunilam os esquemas de alianças e de conchavos eleitorais, estranho, muito estranho, é o fato de o candidato que até dois meses atrás era considerado imbatível, algo como pule de dez, ser avaliado hoje como derrotado antes mesmo de ele começar sua campanha. Longe de mim querer desmerecer a seriedade das pesquisas, mas é realmente estranho como alguém que não passava de traços subir tão alto e tão de repente.
Reitero que desconheço os critérios dos institutos. Entretanto, até que me provem o contrário, continuarei questionando o crescimento repentino de um dos potenciais candidatos e a queda vertiginosa de outro. Entendo os números como teses que carecem de confirmação, o que somente ocorrerá na noite do dia 4 de outubro. Por enquanto, prefiro não aderir à histeria de alguns, tampouco me comover com o chororô dos demais. Mesmo cético, não radicalizo como fez o ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022.
Naquela oportunidade, Bolsonaro chegou a dizer que acreditar em pesquisa é igual acreditar em Papai Noel. Exageros à parte, entendo que qualquer pesquisa que se preze precisa ter como base o princípio da amostragem de acordo com critérios técnicos. Amostragem significa universalizar as entrevistas e aumentar o quantitativo de entrevistados, preferencialmente dividindo-os em subgrupos capazes de representar os vários segmentos da sociedade, de forma a que elas correspondam ao conjunto da população.
Para mim, é difícil acreditar que mil ou duas mil pessoas respondam por quase 160 milhões de eleitores. Considerando minha imbecilidade no assunto, indago a mim mesmo se a madame, o magnata da Faria Lima, os frequentadores de academias ou os patriotas assumidos são mais formadores do que os professores do interior do país. Acho que não. Pela lógica, caso um pesquisador não consiga se comunicar com os brasileiros dos rincões, entre eles agricultores, pescadores, vendedores de balas e rendeiras do Nordeste, ele terá falhado em construir e disseminar o conhecimento de forma eficaz. Imaginem a compilação das respostas.
Sem entrar no mérito da qualidade dos pesquisadores ou dos institutos, lembro de erros grosseiros em eleições pretéritas. As de 2014 permanecem como referência. Naquele ano, os dois principais institutos tiveram de rebolar para reverter no segundo turno o descrédito do primeiro turno. Um deles só conseguiu isso depois de triplicar o volume de consultas. Quem não se lembra das eleições paulistanas de 1985, quando, favorito nas pesquisas de intenção de votos, o então senador Fernando Henrique Cardoso posou para jornalistas na cadeira de prefeito? Jânio Quadros venceu o pleito e se “vingou” na mesma moeda.
Como eleitor, é claro que tenho minha preferência. Todavia, mesmo como jornalista de posições claras, torço para que o melhor candidato vença nas urnas. Repito que elas só serão abertas após o encerramento da cotação, às 17 horas do dia 4 de outubro. Até lá, a vitória de um e a derrota de outro é apenas sonho de verão daqueles que já começaram a pensar no futuro. A esses, fica a singela sugestão de um velho e cansado eleitor: Façam suas pesquisas, mas não esqueçam que eleger o presidente da República é prerrogativa exclusiva do eleitor. Deixem o povo escolher.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978