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Brasil

Estratégia do general não resistiria a ataque da Bolívia

Wenceslau Araújo*

Os últimos acontecimentos da política brasileira confirmaram algumas certezas sobre as quais não tínhamos dúvidas, mas teimávamos em não aceitá-las como verdadeiras. A ausência total de logística, estratégia e de união nas questões do tratamento foi marcante no bate-cabeças do governo antes, durante e após a aprovação da CoronaVac pela Anvisa. Dizer que foi uma derrota anunciada para Bolsonaro é pior do que a mentira do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, creditando ao governo federal a totalidade dos custos com a industrialização e entrega da vacina ao Instituto Butantan. Ficou muito mal para um estrategista e papa em assuntos logísticicos ser desmentido em rede nacional e em cores. Faltou-lhe – e ao chefe – combinar com o técnico dos russos: o governador João Dória. O desfecho foi uma sinuca de bico para os seguidores: ou toma vacina da China ou adoece e respira oxigênio da Venezuela.

Para quem é realmente patriota e torce pelo crescimento do país e pelo sucesso do governo, independentemente da bandeira ideológica, a terceira e mais desgastante certeza é o veneno das falas e posicionamentos diários do presidente da República, que, assim como a vacina contra o Covid-19, não se limita aos bolsominions, mas a todo Brasil. Reconheço que o termo é pejorativo para se referir às pessoas, mas a recíproca é ainda mais radical. Eles querem trucidar os que eventual ou deliberadamente marcham em lado oposto. Para ilustrar, a palavra bolsominion é um neologismo (amálgama para os linguistas) construído pela junção “Bolso”, do nome próprio Bolsonaro, com o vocábulo inglês minion, definido como “servo, lacaio”. Não é prazeroso rotular irmãos, mas a vida é feita de escolhas. Cada um escolhe o caminho a seguir. Como a vida pune, as consequências aparecem quando menos esperamos.

O[CC1] grande problema do Brasil de nossos dias é que o presidente só consegue trabalhar com o fígado. Não se permite deixar de lado as vísceras e esquecer, pelo menos por uns dias, que nenhum brasileiro normal quer vê-lo, como Trump, na sarjeta política. Estou certo de que todos querem respeitá-lo como líder do país. Entretanto, seus próprios seguidores continuam distantes dos protocolos básicos da boa vizinhança. O ódio não é salutar nem mesmo para a paz da alma. Por isso, deveríamos testar uma convivência de diferenças, mas sem desavenças, sem beligerância. Para o bem da nação, poderíamos aproveitar a chegada da vacina e assinar unilateralmente uma trégua em nome da vida.

O tempo do verbo poder está correto. Poderíamos não fosse o desejo visceral do presidente pela guerra, pelo armistício. Sinceramente, terei medo de ser vacinado com a CoronaVac – minha preferida – quando do lançamento da campanha. O risco de ser apedrejado por quem defende o medicamento recomendado por Bolsonaro é iminente. Meu Deus! Triste, lamentável, mas verdadeiro. A utilização do fígado à frente de qualquer gesto ficou clara no dia seguinte à desenhada e desnecessária derrota de Bolsonaro para o governador de São Paulo, que atentou contra a humanidade ao aplicar a primeira dose da vacina chinesa em uma enfermeira do sistema estadual de saúde.

Pode ter sido um gesto político. E foi. A lógica da questão é uma só: não permitiram a Bolsonaro aplicar a primeira picada de um remédio que ele combate desde os primórdios da pandemia. Para sua mente de caroço de ervilha, o anúncio de Dória foi interpretado como uma heresia imperdoável do súdito paulista, um reles governador do maior e mais rico estado brasileiro e o pagador da fatura emitida pelo laboratório chinês. O rei é ele e, aprendam brasileiros, não deve ser contrariado, sob pena do açoite, da palmatória e, caso o dia seja novamente negro, da palmatória.

Incomodado com as críticas e por não aceitar a derrota para Dória no episódio da CoronaVac, o day after presidencial foi amargo, fumegante e nada dionisíaco (definição daqueles que cultivam a saúde física e espiritual e amam a vida com entusiasmo). Acordou com aquilo que já foi roxo virado e determinou, como primeiro ato oficial do dia, o imediato resgate do gabinete do ódio, grupo que age às escondidas e que combina os encontros com seguidores na saída do Palácio da Alvorada, alimenta o canal de divulgação de informações no Telegram e dispara fakes contra adversários. Os inimigos da vez são o jornalista Willian Bonner e o apresentador Luciano Huck, pretenso candidato à Presidência da República em 2020. Como coincidência, ambos são globais.

A mente de ervilha acredita também ter atingido a Rede Globo, primeira emissora a desmentir, no Fantástico, os gastos do governo com a CoronaVac. Na verdade, o jornalismo da Vênus Platinada apagou de vez os adjetivos com os quais Bolsonaro se dirigia a Pazuello. Com todo respeito, se o titular da pasta da Saúde for mesmo esse estrategista que o Amazonas e o Brasil estão conhecendo o Exército Brasileiro carece urgentemente de novos quadros. Não é crível um representante do governo visitar um estado e não conseguir antecipar, de modo a evitá-lo, um iminente colapso. Parece que fazia dias o ministro tinha sido alertado sobre a falta de oxigênio nos hospitais de Manaus.

Ouviu, viu, voltou e nada fez. Se nossa estratégia militar for nessa linha, imagina enfrentar a Bolívia em uma guerra? Falando sério, o que claramente falta é planejamento coletivo para que o presidente Jair Bolsonaro comece de fato a governar. Mais sério ainda é a tal da teoria da conspiração. O presidente precisa deixar de achar que, fora do bolsonarismo, não há salvação e que todos são contra ele. Antes de raciocinar logicamente sobre isso, ele tem de acreditar que a vida e as palavras punem. Às vezes, a punição é grave e irreversível. As últimas pesquisas que o digam.

*Wenceslau Araújo é jornalista

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