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Brasília

Estúdios Disney, a grilagem e o fim do sonho do voo livre em Brasília

Foto/Reprodução
Ka Ferriche

O voo livre tinha duas categorias: asa delta e parapente. Agora tem três: deve ser somada a inédita Up! A nova categoria surgiu a partir de um litígio sobre uma das rampas mais prestigiadas do Brasil, inaugurada há 35 anos por intrépidos desbravadores, no Vale do Paranã, em Goiás.

Localizada a 80 km de Brasília, a rampa chegou ao cenário internacional porque os destemidos voadores que de lá decolam têm como objetivo chegar à Esplanada dos Ministérios, no centro da capital da República. Etapas dos campeonatos brasileiro e do circuito mundial são realizadas naquele local, com repercussão mundial.

A nova modalidade – Up! – como os veteranos e usuários da rampa denominaram a façanha, criando uma analogia ao antipático dos estúdios Disney, foi batizada a partir da inspiração no desenho animado – Disney/Pixar -, e tem um único praticante. É o senhor Carl Fredricksen (alcunha do implicante) que está construindo uma casa no local e proibiu que as demais categorias tenham acesso à rampa, quase como fez na tela dos cinemas.

Mas o senhor real não é o emburrado Carl, do cinema. É muito mais mal humorado e cruel. Seu nome é… deixa pra lá.

Dizem que de lá, solitário, o personagem real pretende amarrar milhares de balões coloridos de festinha de aniversário na casa de alvenaria que está construindo, decolar à deriva, e desbancar o esporte regulamentado.

Após mais de três décadas o acesso ao local, agora impedido pelo Up!, passa a ser um problema de interesse público. Os campeonatos geram emprego e renda, divulgam o Centro-Oeste brasileiro em todo o mundo. O senhor Up! emburrou e diz que não sai nem a pau. E quem quiser saltar no vazio da rampa de mais de 1 mil 200 metros acima do nível do mar e voar, vai ter que encontrar outro local, que ele sabe muito bem que não existe outro em iguais condições.

Foto/Divulgação

Impedir o acesso à área que é de usucapião, fartamente comprovado, para construir ali qualquer coisa que não seja uma rampa para a prática do voo livre, já permitiu o encaminhamento de outra providência. Os Estados interessados e o Ministério do Turismo já definiram a atividade, incluindo o local para decolar, como patrimônio imaterial.

Então, senhor Up!, faça a sua casinha lá, não voadora (balões estouram), estabeleça um ponto de apoio, um restaurante, lanchonete, espaço para camping, construa uma rampa moderna. E até poderá morar lá, auferindo os lucros do atendimento politicamente correto. A turma também tem um Russell, o menino que sensibilizou o velho e rabugento Carl.

Cuidado, senhor Up – Tem muito piloto de asa delta – rapazes e moças, senhoras e senhores -, querendo vestir a roupinha do Russell. Mas não descartam se travestir de Urtigão e sair atirando para todos os lados. E estão lançando a hashtag #Salvemarampa.

É o caso, por exemplo, de Donisete de Paiva Vale. ‘Invadiram a rama do Paranã. E agora?’, diz, em tom de lamento. Já Tainá, que pilota parapente, exprime seu descontentamento. “Um senhor (no caso, o Up), invadiu a área. Além de não ter escritura do local, ou qualquer outro direito, teve uma postura agressiva e desrespeitosa com nossos parceiros e com a comunidade. Precisamos salvar a rampa”, pede.

Quem segue no mesmo tom é Leandro Rezende Souza: “Sou piloto de Asa Delta há oito anos. Sempre ouvi histórias antigas do voo livre em Brasília. E isso remonta à época em que as asas ainda não tinham performance suficiente para chegar voando na Esplanada dos Ministérios. Com o passar dos anos as asas foram se aperfeiçoando e o Vale do Paranã foi se tornando palco de competições nacionais, internacionais e campeonatos mundiais por equipes e individual”.

Porém, enfatiza Leandro, “para o desespero da comunidade desse sublime esporte a área de convívio e decolagem foi ocupada de forma irregular. Estão erguendo (olha o senhor Up aí de novo) obras no local, ameaçando a prática do esporte que atrai pilotos de todo o mundo”.

Renan Herdy, outro piloto de asa delta, não deixa por menos. “Precisamos conter esse fazendeiro (ah, senhor Up) que está invadindo a área. O local é de interesse público para o turismo e o esporte”, pontua.

A mesma linha é acompanhada por Sidney Joaninha Barbosa: “Sou piloto de parapente e utilizo a rampa do Vale do Paranã. Precisamos acabar com a grilagem que vem ocorrendo no local. A rampa é patrimônio imaterial. É dos pilotos de Brasília, do Brasil, de todo o mundo”.

Foto/Divulgação

O também piloto Victor Singh, é mais agressivo. Não mede palavras: “Estão grilando a área da nossa rampa, instalando container, cercando a área e impedindo a passagem dos carros. A prefeitura de Formosa já embargou a construção… Vamos dar um basta nessa situação”.

O dano provocado pelo senhor Up é mais triste ainda, como conta Adauto Oliveira, presidente da Associação de Voo Livre de Brasília. Os invasores, Upezinhos, crias do senhor Up, “destruíram tudo, derrubaram árvores, bloquearam o acesso, estão construindo uma base para edificar uma casa no local. A rampa está em processo de desapropriação pela prefeitura de Formosa, e será entregue definitivamente à Associação de Voo Livre de Brasília. É um direito nosso, pois estamos na área há mais de 30 anos”, enfatiza Adauto. E encerra: “É um crime contra o patrimônio histórico e turístico da região que não podemos permitir”.

Leu os desabafos, senhor Up? Pense nisso antes que alguém o considere um ativista do MST. Aí você se ferra. Nem o Russell vai salvar a sua varanda…

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