Curta nossa página


Palavras

Eu nunca

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Eu nunca me refocilei. Quer dizer, achava que nunca, mas, pra falar a verdade, já sim. Nem conhecia a palavra, mas aí a Dorinha falou que o marido se refocilava com as amantes. Pensei que fosse algo mais que imoral, nojento, mas chequei no dicionário… refocilar-se tem os significados de recobrar as forças, distrair-se do trabalho ou do estudo, adotar uma posição bem confortável para descansar.

Se meu primeiro “Eu nunca” me deixou meio decepcionada, o segundo foi tiro e queda. Eu nunca me espojei. Nunquinha. Pra falar a verdade, achava que isso era coisa de homem, quando termina dentro da mulher. É que sou filha de espanhóis, meus pais pronunciavam o j do português como rr. Então, com rr, o gozo do homem; com j, o deitar no chão e rolar de um lado para outro, por simples prazer, como fazem os cavalos, os cachorros e outros bichos.

Eu nunca me lambuzei. Claro que não estou falando de comer melado ou de chupar sorvete, nesses casos, escorrer um pouco é quase inevitável. Não, falo de lambuzar-se no sentido de sexo, como está na letra de Geni e o zepelin, de Chico Buarque: “Ele fez tanta sujeira/ lambuzou-se a noite inteira/ até ficar saciado”.

Pra falar a verdade, se eu não me lambuzava, o Nogueira lambuzava-se por nós dois, quando fazia comigo. Eu aguentava em silêncio, o mais imóvel possível, até ele terminar. Sei que minha falta de reação o deixava furioso, mas não fui criada para essas coisas, e sim para ser esposa fiel, mãe dedicada e excelente dona de casa. Por sorte, Deus já o levou, não preciso mais me submeter a esses vexames.

Eu nunca tive um orgasmo, nem sei exatamente como é. Vejo minhas amigas falarem que depois da coisa ficam bem molinhas, até a onda de prazer passar de vez; nessas ocasiões, dou um sorriso cúmplice, cheio de experiência, mas permaneço em silêncio. Pra falar a verdade, nem acredito muito nessas sonsas, vai ver que estão todas à espera que uma tolinha desate a falar do que não existe…. Talvez sexo com um perfeito cavalheiro, gentil e atencioso, seja bom, mas, com o Nogueira, nunca foi.

Hoje sou uma viúva de 48 anos, praticamente uma senhora idosa. E então, não sei bem por quê, senti a necessidade de fazer um balanço de minha vida. Pra surpresa minha, os “Eu nunca” se acumularam, superaram por larga margem os “Eu já”; os itens mencionados aqui são os únicos de natureza sexual, quer dizer, sei que tem mais coisa, mas não quero tocar no assunto. E eu que imaginava ter uma vida movimentada, com as idas diárias à igreja e os cuidados com as crianças – que já são um casal de jovens!

Então é isso. Rezo para que Rodrigo e Carmen encontrem parceiros tementes a Deus e construam lares cristãos. E me deem netos, muitos netos. Mas, quase no fim da vida, estou pronta para Ele me levar a qualquer momento. Sei que não há indecências no céu, então poderei ser uma boa amiga do Nogueira. Tadinho, ele deve estar bem solitário, e no fundo não é má pessoa…

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.