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Desencanto político

Evangélico muda de lado com voto de protesto

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

O que parecia impossível no Brasil até pouco tempo está bem próximo de acontecer no seio conservador da família evangélica. Não sei se preocupados com um possível pito divino ou se desencantados com as promessas não cumpridas dos meninos do clã que eles cegamente apoiavam, os protestantes claramente sinalizam para uma mudança de rumo nas eleições presidenciais que se avizinham. Sugiro que os progressistas não sonhem com radicalismos do povo fanatizado pela Bíblia.

Por exemplo, provavelmente Luiz Inácio não será a primeira opção de voto deles, mas deve sobrar alguma coisa para o candidato que, aos poucos, por culpa exclusiva do adversário, vem deixando de ser visto como o Satanás de rabo. Não tenho informações conclusivas, mas, de acordo com o que já ouvi em bastidores de cultos em igreja pentecostais de ponta, os evangélicos andam desencantados com a falácia de que ser decente parece virtude e não obrigação.

Em palavras mais palatáveis, tudo indica que os chamados crentes estão dispostos a assistir, de longe, o afogamento na própria saliva dos que fazem das ameaças uma forma de campanha política. É o caso do presidenciável que critica a gestão em curso, mas não apresenta nenhuma proposta capaz de chamar a atenção do eleitorado menos afeito ao radicalismo. Enfim, é o universo evangélico em desencanto.

Como crítico ferrenho da soberba, morrerei achando que os que menos sabem se governar são os que mais ambicionam governar os outros. Dos candidatos já postos, a carapuça só não cabe em um. Enquanto pensamos no nome que vamos confirmar na urna eletrônica, é de bom alvitre lembrar que, às vezes, o eleitor, consciente ou não, precisa parar de buscar o lado bom das pessoas e começar a ver o que elas realmente nos mostram. Sintetizando, a melhor escolha é em quem em ser e não apenas em ter.

Está claro que, independentemente da religião, o povo brasileiro, além de Deus e a si mesmo, não prega mais lealdade a mitos, falsos profetas e a líderes forjados na mentira e no descaramento político. Por conta desse novo perfil evangélico, algumas pesquisas eleitorais já emitem sinais de candidaturas que alcançarão o cadafalso. Serão atingidos todos aqueles que queriam tudo e não conseguiram nada. Presumivelmente, as consequências serão muito piores do que a eventual derrota.

Potencialmente narcisistas, os que se incluem na lista dos acima de qualquer suspeita provavelmente ficarão bem menos preocupados com o que as outras pessoas pensam deles quando perceberem como elas pensam pouco neles. De pouco ou nenhuma influência, os amiguinhos dos mentirosos Donald Trump e Javier Milei deverão receber cartão vermelho de seus respectivos públicos na noite de 3 de outubro próximo. Por falar em Milei, alegando desperdícios, recentemente ele cortou programas para argentinos com deficiências  na Argentina e alega “desperdícios”. No Brasil, já sofremos com a falta de vacina para a Covid. Chores por Milei, Argentina! Chores pelos mitos, patriotas! Chores por Trump, americanos serviçais.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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