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Papai Noel não existe

Fim de infância

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A infância de Francisco, o Chiquinho, terminou duas vezes.

A primeira, quando tinha cinco anos. Ele flagrou os pais colocando os presentes junto à árvore, na véspera do Natal, e saiu aos berros pela casa:

– São vocês! Papai Noel não existe!!

Os pais rosnaram de volta:

-É, não existe. Mas sua irmã tem dois anos, e acredita. Se você falar alguma coisa pra ela, vai levar a maior surra de sua vida.

Chiquinho acreditou. Não no bom velhinho, nos pais. E participou da farsa, rindo por dentro da ingenuidade da imbecilzinha, que acreditou em Papai Noel até os oito anos.

O segundo fim de infância de Chiquinho foi mais complicado.

Ele estava com 8 – 9 anos. Era um garoto gordinho, sujeito aos perigos que sempre rondam garotinhos rechonchudos. Meninos mais velhos convidavam-no para um troca-troca; ou então, no meio de uma partida de futebol, propunham “cinco minutinhos comigo”. Chiquinho era livre para aceitar ou não; em geral, mandava o moleque à merda, mas com um sorriso amistoso, sem rancor. O garoto sorria de volta e o jogo continuava. Bola pra frente.

E então apareceu Ivan. Tinha uns 14 anos, mas aparentava mais. Era feio, baixo e troncudo e só falava merda. Gabava-se, em especial, de ter sodomizado dezenas de moleques. Chiquinho e os meninos mais novos tinham horror dele.

Turminhas são difusoras de conhecimento, e a garotada logo aprendeu que Ivan era fanchone: alguém que só gosta de fazer com meninos pequenos, não chega perto de uma mulher. E então, certo dia, houve uma ruptura na vida de Chiquinho, que assinalou o segundo fim de sua infância. O que se passou, ele até hoje não lembra, seu subconsciente suprimiu a ferro e fogo qualquer recordação.

Se este fosse apenas um conto, um escriba teria diversos caminhos para preencher a lacuna. Em um viés naturalista, relataria o doloroso estupro do garoto e seu retorno para casa, o calção sujo de sangue. Ou escreveria sobre a intervenção dos meninos mais velhos, que deram uma surra de criar bicho em Ivan. Mas há muito de autobiográfico neste conto triste, o bloqueio do subconsciente subsiste, então o texto também é interrompido.

Após o segundo fim da infância, Chiquinho tornou-se o que, na turma de sua rua, era chamado de “mordido”: um moleque temeroso de qualquer contato físico com os outros. Se um menino, mesmo mais novo, punha amistosamente a mão em seu ombro, ele logo se desvencilhava; se, num jogo de bola, alguém colava o corpo no dele, ele desistia da jogada e se esquivava. Seu talento para o futebol, que nunca fora grande, ficou ainda menor.

Houve outros encontros com Ivan, afinal moravam no mesmo bairro. Não trocavam uma palavra, o meninão olhando-o meio ressabiado, o menininho fuzilando-o com uma expressão que bem mais tarde identificaria como uma mescla de desprezo e asco. Pelo menos, o imbecil parou de se gabar dos muitos garotinhos que violentara. Já era alguma coisa, graças aos deuses por pequenos milagres.

Só que não foi o ficar “mordido” o signo mais importante da ruptura na vida de Chiquinho. Houve algo bem maior: o mundo como que entristeceu, ficou mais feio, suas cores esmaeceram. O sol, que iluminava forte a infância de Chiquinho, passou a emitir menos luz e calor, ou assim lhe pareceu; plantas e flores tornaram-se, a seus sentidos, menos coloridas, menos perfumadas.

Por sorte, o desencanto do mundo não durou para sempre. Aos 10 anos, o garoto (agora chamado de Chico, o diminutivo ficara para trás) ingressou no ginásio. Novos amigos, novos estímulos intelectuais, as primeiras paqueras, a primeira namorada – tudo isso trouxe de volta, uma a uma, as cores perdidas. Mas voltaram todas, aquelas todas que tinham embelezado sua infância? Isso Chico, depois Francisco, não sabe, não tem como responder.

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