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A vida de Arlete

Frestas de felicidade

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Ela se deixou casar por mais duas vezes, a despeito do primeiro, grávida, que fora um desastre imposto pelos pais. Ou era aquilo, ou perigava cair na boca do povo.

Não que alguém com um mínimo de discernimento fosse acreditar que aquele bebê rechonchudo tivesse vindo ao mundo de seis meses. Não importa, meu amigo, pois o que vale é o que está no papel. E foi assim que as aparências se fiaram diante do padre.

Apesar das agressões e humilhações sofridas, a iniciativa da separação não visitou Arlete. Foi de Marcos, que andava desgostoso de voltar para casa e se deparar com aquela realidade sem sabor da vida de casado. Que culpa poderia ter o pobre rapaz, se é da natureza dos homens buscar aconchego na vizinhança? Se ao menos a esposa fosse do tipo compreensiva.

Com menino no peito e outro a caminho, a divorciada ficou sem chão. Não que antes tivesse vida fácil, mas era algo que estava acostumada. Para não morrer de fome e ter o que dar aos herdeiros de nada, Arlete foi diarista, costureira, cuidadora, quase nunca dos seus, que precisaram aprender a não morrer por coisa pouca. O que não mata engorda, mesmo que não tivessem praticamente o que comer.

O amor, esse sentimento insano e inesperado, teria sido o empurrão para o segundo enlace matrimonial. A princípio, Arlete considerou a improvável felicidade em alguma fresta. Ledo engano, como se traída pela própria ignorância. Lúcio, sujeito correto, assim que viu plantada sua semente na mulher, alçou voos mais condizentes com seu destino desbravador. Adeus, Arlete! Onde comem três, comem quatro.

Gilberto, viúvo com uma carrada de filhos, se mudou para o quarto e sala ao lado do lar, doce lar da Arlete. Coincidência pouca é bobagem e, correria para cá, correria para lá, os dois trombaram na escada. Trocaram olhares e, sem maiores expectativas, no início do mês seguinte, lá estavam os pombinhos trocando afagos, apenas com o resto de groselha e bolinhos de chuva sobre a mesa como testemunhas.

Arlete e Gilberto bem que poderiam deixar a coisa daquele jeito. Todavia, pobre não se contenta como está e, assim que surge a oportunidade, faz de tudo para piorar. Juntaram os panos. É verdade que economizaram no aluguel, mas a galera precisou se acostumar a dormir em pé para caber no cubículo.

Com tanta gente junta, o casal precisava se desdobrar para manter a intimidade. Não deu outra e, como quase tudo na vida de Arlete, o romance não teve um final feliz. E o improvável, esse arteiro, aconteceu.

A mulher, mal acordou, percebeu a ausência do marido naquela pilha de gente. Levantou-se, tomou o cuidado de não pisar em ninguém e, assim que chegou perto da porta, viu Letícia, de 8 anos, a caçula de Gilberto.

— Cadê seu pai?

— Papai foi embora.

— Embora? Pra onde?

— Num sei, num falou.

Arlete, apesar de surpresa, não deixou de notar os olhos marejados da criança.

— O que foi? Por que está chorando?

— A senhora não vai ser mais a minha mãe?

Aquilo tocou o coração tão castigado de Arlete.

— Oh, Letícia, você sempre será a minha menina filha linda.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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