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O beco

Futuro antecipado das nossas crianças sem-teto

Publicado

Foto/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Reprodução

Meninas e meninos, todos com não mais de dez anos, corriam de um lado para outro naquele beco mal iluminado nos subterrâneos do Setor Comercial Sul. Não raro, alguns ratos pareciam querer entrar na brincadeira, tamanha a euforia da molecada. As moscas, no entanto, demonstravam maior interesse em sobrevoar as caçambas de lixo, que se amontoavam exalando um cheiro horrível.

As paredes ao redor eram cobertas por tintas e mais tintas de grafites esquecidos pelos olhares dos que por ali haviam passado. Lojas praticamente abandonadas circundavam aquele beco. Todas com as mesmas cores, como se combinassem até as falhas rudemente encobertas por um reboco sem pintura, tijolos que se sobressaíam como espinhos que machucam a carne.

Os poucos moradores eram os esquecidos da cidade, que cada vez mais havia crescido para o lado oposto. Sim, o lado oposto! O lado onde tudo parecia florescer, a despeito da miséria que ficava cada vez mais para trás. Todas as mazelas cada vez mais encrustadas naquele beco.

Entretanto, aquelas crianças pareciam não se importar com a própria situação de penúria. A gritaria chegava a ser ensurdecedora. Seja como for, os raros transeuntes não demonstravam qualquer interesse naqueles pirralhos.

A manhã passou como um sopro. Ninguém queria deixar de participar do pega-pega, do pique-esconde, da queimada. As brincadeiras se sucediam, se sobrepunham, se misturavam como se tudo fosse uma coisa só. Todas aquelas criaturas miúdas sorriam seus sorrisos infantis, algumas sem os dentões da frente, que há pouco haviam caído.

Logo chegou a tarde, que correu ligeira com aquelas pernas curtas, que cismavam em permanecer naquele beco imundo. O sol a pino fez os ratos desistirem de acompanhar tamanha balbúrdia, que parecia não ter fim. Cada moleque tentava gritar mais algo que o outro, como se disputassem a atenção de todos os presentes.

Aos primeiros sinais da noite, os poucos moradores do local começaram a retornar para os seus paupérrimos lares. As horas se adiantaram, enquanto o sono começou a tomar aqueles seres sem-teto. E foi o que aconteceu, até que todos os ocupantes adormeciam em suas camas puídas.  Já no beco, as crianças ainda guardavam energia para várias horas.

A madrugada veio e, com ela, o ranger das rodas enferrujadas de uma velha carroça, puxada por um cambaleante cavalo. O animal arfava, enquanto era chicoteado por um homem de chapéu de palha. E antes que esse ser repugnante pudesse perceber a movimentação no beco, todas as crianças correram para detrás de uma daquelas enormes lixeiras.

O homem parou a carroça bem perto de uma das caçambas. Observou para todos os cantos. Nada! Nem uma alma viva! Ele soltou o chicote e desceu da carroça. Era mais alto do que se supunha, apesar das costas arqueadas. O rosto encovado talvez fossem marcas de uma vida sofrida.

Abriu a enorme tampa do contêiner de lixo. Deu mais uma olhada ao redor, em seguida se dirigiu até a traseira da carroça, arriou a tampa, puxou um saco encardido. Com um pouco de esforço, o colocou sobre o ombro direito. Aproximou-se o máximo possível e, então, deixou que o volume caísse direto na caçamba. Um som surdo se fez notar. Novo olhar ao redor. Ninguém! Nenhuma alma perdida.

Fechou a tampa, subiu na carroça, pegou o chicote. O cavalo, talvez percebendo o que lhe iria acontecer, adiantou o passo e logo a carroça desapareceu daquele beco escuro. O silêncio permaneceu naquele local, pois as crianças não se atreviam nem a respirar, tamanho o medo que lhes tomou por completo.

Alguns minutos depois, no entanto, um dos miúdos saiu detrás da lixeira. Não que fosse o mais corajoso, mas era o que possuía o maior sentimento de curiosidade. Um a um foram ao seu encalço, até que chegaram à outra caçamba de lixo, justamente aquela onde o homem havia jogado o tal saco encardido.

Com certo esforço, conseguiram suspender a tampa. Abriram o saco e, então, perceberam que ali havia o corpo de uma menina. Mas não era apenas isso que estava naquela enorme caixa de metal enferrujada. Outros corpos jaziam ali. As crianças, olhos arregalados, se reconheceram, uma a uma, naqueles cadáveres em avançado estado de decomposição.

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