Périplo carnavalesco
Galo, 13 de macumba, pode transformar em cinzas a Fênix de Lula 4
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O sistema político brasileiro é complexo e cheio de armadilhas. O Galo da Madrugada é, por tradição, o território onde a política costuma pedir licença ao frevo. Mas neste Carnaval o script parece ter sido invertido. Foi a política que convidou a festa para dançar, com um ingrediente extra. Candidato declarado à própria cadeira, Lula caiu no frevo, aguarda o suor do axé e ensaia passos de samba.
No sábado, 14, Luiz Inácio Lula da Silva surgiu sorridente, distribuindo acenos e fotografias, ladeado por dois personagens que, fora do compasso momesco, disputam palmo a palmo a primazia do poder em Pernambuco. À direita, a governadora Raquel Lyra; à esquerda, o prefeito João Campos. Primos, aliados ocasionais e adversários permanentes. Tudo depende do calendário e da conveniência.
A cena foi didática. Enquanto os clarins anunciavam mais um arrastão de alegria, a coreografia política ensaiava a chamada “boa vizinhança”. Nada de empurrões públicos, nada de notas atravessadas. Pelo menos naquele momento, a ordem era sorrir para a selfie e deixar que a multidão resolvesse o resto.
O domingo, 15, amplia o mapa da folia presidencial. A agenda prevê passagem pela Bahia antes do desembarque no Rio de Janeiro, onde a Acadêmicos de Niterói prepara um enredo que funciona como abraço, afago e, naturalmente, vitrine.
E é aí que a pergunta começa a dançar mais alto que o surdo: Carnaval é tempo de tirar máscaras ou de experimentar novas?
Porque, se por um lado a tradição recomenda suspender rivalidades em nome da festa, por outro o calendário lembra que o país caminha para eleições gerais. Em ano pré-eleitoral, cada aparição carrega intenções que sobrevivem à quarta-feira de cinzas. O confete cai, mas o registro da imagem permanece multiplicado em vídeos, cortes, memes e santinhos virtuais.
Não se trata apenas de presença; trata-se de enquadramento. Quem está ao lado de quem, quem sorri para quem, quem divide o mesmo palanque improvisado sobre o asfalto quente. A política, experiente foliã, sabe que às vezes um passo de frevo comunica mais que um discurso de paletó.
Os aliados locais também compreendem o valor simbólico. A fotografia conjunta pode significar pacificação, pode sinalizar preferência, pode ser apenas o retrato de um instante cordial. Mas, em ambiente polarizado, raramente será vista como neutra.
Há quem veja integração institucional. Há quem enxergue campanha fora de época. Entre uma interpretação e outra, a bateria segue rufando, porque o Carnaval tem a vantagem de tudo parecer espontâneo, mesmo quando foi cuidadosamente ensaiado.
No fim, talvez a resposta seja menos moral e mais prática. Máscaras não servem apenas para esconder; são usadas também para revelar papéis. No teatro da folia, cada gesto ganha luz própria, e quando a música termina, sempre há alguém pronto para analisar quem saiu maior do que entrou.
A quarta-feira de cinzas chega rápido. Mas certas imagens costumam durar até a próxima urna. No meio do caminho haverá a Copa. E o TSE, que terá Cássio Nunes Marques como maestro, pode entender que houve propaganda antecipada. Se isso acontecer, a Fênix não ressuscitará das cinzas. E o projeto Lula 4 pode morrer no nascedouro.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
