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Anunciação política

Golpe perneta de Bolsonaro será abortado por povo de pé no chão

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Junior* - Foto de Arquivo

Nesses últimos dias, tenho gasto meu precioso com leituras variadas acerca do esperneio do mito Jair Messias sobre os números das pesquisas eleitorais. Curiosamente, todos os autores acabam citando, criticando ou concluindo pela possibilidade de golpe no caso de a derrota ser confirmada por qualquer vantagem. Faz algum tempo esse resultado é previsível, isto é, algo cantado e decantado como uma anunciação política. Ainda é cedo para tal afirmação, mas não será nenhum absurdo se a derrocada do slogan Deus acima de tudo se consolidar já no primeiro turno. Deixando de lado os entretantos, melhor partir logo para os finalmentes. Golpe de quem, em quem, com apoio de quem e para que? Golpistas cumprem estratégias. Nunca as antecipam.

A tomada de poder pela força normalmente acontece quando um governante ruim ameaça levar o país e seu povo para o buraco ou para regimes políticos temerários. No caso em questão, há uma óbvia inversão de valores, pois ruim e ameaçador é exatamente quem está propondo o levante. Então, numa situação normal não há o que temer. E, convenhamos, por mais que se tente, dificilmente ocorrerá alguma anormalidade que não consiga ser controlada pelas forças de segurança que respeitam a Constituição, o eleitorado e seus votos e, principalmente, a democracia como única forma de coesão e recuperação de uma nação cada vez mais próxima da lona.

É preciso que tenhamos sempre na memória que, historicamente, o segredo e o silêncio são a alma de um bom negócio ou empreitada. É dizer que cão que ladra não morde. Ampliando a força do ditado, diria que pets latindo historicamente a qualquer hora do dia ou por razões menores é sinônimo claro de temor, de pavor com o que está por vir. É o caso do Brasil de hoje. Em síntese, a menos que haja uma cataclisma, o golpe anunciado desde o 7 de Setembro de 2021 se perderá na fumaça negra que sai do Planalto diariamente. Pode ser que, antes da fumaça se dissipar, haja conflitos, prisões e muita, muita confusão, mas nada que se aproxime de uma hecatombe. Nesse caso, a adoção da GLO (Garantia da Lei e da Ordem) é uma das prerrogativas já colocadas no bolso do jaquetão do presidente do STF, ministro Luiz Fux.

Depois, como ocorreu com os simpatizantes fanatizados de Donald Trump, certamente todos terão de responder à Justiça. Quanto ao silêncio como sucesso de determinados trabalhos, vale lembrar o falecido general Olímpio Mourão Filho, conhecido como o precipitador do golpe de Estado de 1964. Após defender a posse de João Goulart em 1961, nos anos seguintes ele considerou Jango uma ameaça ao sistema político e conspirou pela sua derrubada. Concretizou a deposição de Goulart ao deslocar para o Rio de Janeiro, antes da data prevista, a 4ª. Região Militar/Divisão de Infantaria de Minas Gerais, na Operação Popeye, dando início ao levante. Portanto, mesmo sem conhecimento de todos os conspiradores e sem muitos gritos ou ameaças, na manhã de 1º. de abril de 1964 o Brasil estava entregue aos militares.

Foram 21 longos e intermináveis anos. Mourão acabou escanteado na ditadura militar resultado do golpe. Voltemos a 2022. Engasgada no útero de minha alma, a pergunta que faço aos meus 18 ou 19 leitores é simples: O que esperar de um presidente que trata seu povo – sejam eles seus eleitores ou não – como excremento vencido do cavalo do bandido? Nos folhetins popularescos, lembra o mocinho fazendo pouco caso do cunhado do marido da concubina. É uma performance que beira o surreal. Outra pergunta que não quer calar é ainda mais simples: O que os líderes de nações sérias e evoluídas têm que falta ao nosso? Essa é de fácil resposta. Prioritariamente, preparo administrativo e tino político.

Também inexistem solidariedade, postura de estadista, consciência social, vontade de acertar, obediência às leis, respeito às instituições e às riquezas nacionais, cortesia com os vencedores e, principalmente, apreço ao povo, que não pode ser culpado pelo fracasso administrativo do mito. Com relação às propostas golpistas que não cessam, não é demais lembrar que, pelas mesmas razões, Trump e seus satânicos seguidores pagaram caro – e continuam pagando – pela tentativa de insurreição. Em vez de procurar culpados para justificar a derrota, nosso Messias bem que poderia se concentrar nos problemas do país. Talvez assim ele ainda pudesse encontrar tempo para fazer frente ao candidato que lidera as pesquisas. O eleitor está cansado de ameaças à democracia e de falsos alertas de fraude nas urnas. É triste concordar, mas assino ao lado daqueles que, com todo respeito ao ser humano, afirmam desconhecer presidente pior nesses 200 anos de República. Para concluir, valho-me de um dos mais lúcidos pensamentos: o silêncio é maior sabedoria do homem.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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