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Teses ultrapassadas

Governar vira verbo oculto no vocabulário do Brasil

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Mathuzalém Junior* - Foto Marcelo Camargo

Durante um período da recente política nacional, mais precisamente entre o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, confesso que quase atingi o desencanto com a política brasileira. O que parecia apenas uma fase de declínio clínico, por pouco não evoluiu para uma internação psiquiátrica, algo como uma camisa de força em um paciente mentalmente terminal. Tudo isso porque, após lembrar de minhas incursões públicas contra a ditadura, sobretudo as manifestações pelas eleições diretas, cheguei a achar que, fora da centro-direita, não teríamos solução.

Foram longos meses desacreditando de todos aqueles que insistissem nos pacotes de discursos anticorrupção. Como disse o poeta Belchior na canção Divina Comédia Humana, vivia mais angustiado do que um goleiro na hora do gol. Em 2018, não votei em Bolsonaro (e não votarei jamais), mas optei pelo descrédito a Fernando Haddad. Ou seja, mesmo contra meus princípios de cidadão, votei em branco. Como me omiti, fui obrigado a aceitar a maioria de votos para o capitão como a vitória da democracia. E foi, queiramos ou não. Tão democrata que acoberta deputado condenado.

No entanto, bastaram algumas semanas de mandato para que eu voltasse a ter certeza de que, apesar dos erros pontuais da esquerda ou de alguns de seus membros, a direita ou qualquer um de seus integrantes não me representam. Na verdade, a ausência total de princípios e a má vontade com tudo que sintonize liberdade me dá a certeza de que jamais me representaram ou representarão. Política são fatos. E os fatos do governo terrivelmente honesto são terríveis, particular e debochadamente antidemocráticos. Inquestionavelmente, são os piores da história republicana.

Por isso, ainda que nunca tenha me associado às ultrapassadas e mixurucas teses bolsonaristas, me penitencio – e me penitenciarei sempre – por um dia ter achado que pudesse ser palpável um governo provinciano e distante do povo. Obviamente nem tudo foram flores nos governos do PT. Pior foram os espinhos que afloraram na administração de Michel Temer. Todos tinham nome, sobrenome e CPF. Alguns surgiram como donos de frigoríficos. Outros dispunham de malas abarrotadas de dinheiro sob a cama. Entretanto, nada igual ou parecido com a era atual, onde tudo é falso, a começar pelo próprio mito. Por exemplo, a doentia mesmice dos discursos nos faz crer que o verdadeiro problema é o absoluto desconhecimento do verbo governar.

Já me acostumei a ler ou a ouvir que a culpa de tudo que acontece por aqui, inclusive a prisão de deputados à margem da lei, é do Supremo Tribunal Federal ou do Tribunal Superior Eleitoral. O Judiciário, o sistema eleitoral, os governadores e os prefeitos que tomaram medidas de combate ao Coronavírus são os únicos problemas de um país cheio de rachadinhas e que caminha para o precipício por obra e graça do obscurantismo de um líder que certamente não consegue conjugar o verbo liderar além da primeira pessoa do presente do indicativo.

Não temos dignidade, respeito, água, luz nem dinheiro para sobrevivência. Talvez falte brasileiro inclusive para roteirizar o caos que se avizinha. No governo das fake news e no Congresso do vale tudo, a falsidade oficial extrapola as cercas e as grades dos palácios e alcança os blogs e sites bancados com recursos públicos. Infelizmente, política não é matemática. Se fosse, tomando por base os números de hoje, Jair Bolsonaro tem alguma chance de vencer as eleições de outubro. Todavia, analisados todos os últimos acontecimentos com a necessária frieza, o grande perdedor será o eleitor, que referendará um governo que nunca existiu e, caso vença, acabará assim que recomeçar. Foi assim em janeiro 2019. Ou não?

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

 

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