A vida como ela é
Governo bom é o que tem menos homens inúteis
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Amante das letrinhas e das boas frases que alcanço com elas, percebi cedo que quem tem futuro é verbo. Eu tenho presente e, às vezes, alguma coisa boa do passado, entre elas a arte, conceito que me impede de morrer da verdade. Não tenho qualquer preocupação com o que ainda está por vir, nem mesmo do último suspiro. Aliás, penso nele exatamente como me ensinaram os escritos de Woody Allen. “Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora em que isso acontecer”. Simples assim.
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. É por isso que canto, choro e esperneio antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos. Como Fernando Pessoa, às vezes ouço passar o vento. E penso que, só de ouvir o vento passar, já valeu ter nascido. A vida é como ela é. Nem mais e nem menos. Maravilhosa, desde que não se tenha medo dela. Mantenho vivos todos os sonhos do mundo. Por isso, vivi e vivo intensamente e feliz com aquilo que me foi dado.
Parafraseando Friedrich Nietzsche, no mundo de hoje, particularmente no Brasil do bolsonarismo, é complicado viver com as pessoas, porque se calar é muito difícil. Quase impossível, apesar das numerosas tentativas de emparedamento adversário. Como sei que nada os irrita tanto quanto o perdão, não durmo sem perdoá-los. Foi o que disse Platão: “Calai os maldizentes e continue a viver bem. Eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência”.
Sabedor de que a utopia serve para que eu nunca deixe de caminhar, descobri a tempo que, no Brasil em que a mentira contada à exaustão acaba virando verdade, embora seja feito de carne, só me permitem viver como se fosse de ferro. Tudo por conta de algumas de minhas desastradas escolhas pessoais, coletivas e, sobretudo, políticas. Aliás, foi nesse quesito minha pior descoberta a respeito do fanatismo político-partidário: O fanático é incorruptível. Se ele não pode converter, destrói. Alguma dúvida?
Com apoio diário das letrinhas, hoje tenho certeza de que Franklin Roosevelt cravou a milhar quando escreveu que é melhor morrer de pé do que viver de joelhos. Por essas e outras, estou convencido de que não é difícil morrer nesta vida. Viver sem convicções, sem consciência, sem personalidade, sem a obrigação de servir e sem amigos é muito mais complicado. É a mesma coisa que morrer sozinho, sem recordações e sem testemunhas.
Já disse e repetirei sempre a tese de Voltaire, para quem devemos julgar um homem muito mais por suas perguntas do que pelas respostas. Em outras palavras, a melhor maneira de se conseguir respostas melhores é começar fazendo perguntas melhores. Diante dessa viagem pelas letras dos mais sábios, é fácil concluir porque parei de fazer perguntas às pessoas cujas respostas me dão medo. São aquelas que continuam vendo utilidade em quem jamais foi útil para si mesmo. Comparando as coisas ruins do passado com as boas do presente, morrerei achando que o melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis.
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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala, e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras