Caminho do atraso
Governo fracassa com pessoal de TI e mudança digital fica capenga
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A baixa adesão à carreira de Analista em Tecnologia da Informação (ATI) no Concurso Público Nacional Unificado (CNU) acendeu um sinal de alerta dentro da administração pública federal e expôs uma fragilidade estrutural em uma das áreas consideradas mais estratégicas para o futuro do Estado brasileiro. Levantamentos oficiais mostram que cerca de 70% dos candidatos convocados ao longo de oito chamadas desistiram de assumir o cargo — um índice incomum em concursos federais e que revela a dificuldade crescente do governo em competir com o mercado privado por profissionais qualificados de tecnologia.
O problema ficou ainda mais evidente após a decisão do governo de prorrogar a validade da primeira edição do CNU sem incluir a carreira de ATI entre aquelas autorizadas a convocar novos candidatos. Segundo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), todos os aprovados no cadastro de reserva já foram chamados, mas o número efetivo de ingressantes ficou muito abaixo do previsto: dos 1.200 candidatos aprovados, cerca de 700 abriram mão da vaga.
O episódio evidencia um paradoxo dentro da própria estrutura federal: enquanto a transformação digital é apresentada como prioridade estratégica, faltam profissionais dispostos a ocupar justamente os postos responsáveis por executar essa agenda.
Para o analista em Tecnologia da Informação e gestor de políticas públicas de TI, Luiz Alexandre, presidente da Associação dos Analistas em Tecnologia da Informação (ANATI), o problema ultrapassa o modelo do concurso e revela uma questão estrutural.
“Os números mostram que a dificuldade não está no certame em si, mas na incapacidade do Estado de competir com o mercado de tecnologia na atração de profissionais qualificados. Isso se torna ainda mais grave quando se observa que essa carreira supervisiona contratos que movimentam cerca de 12 bilhões de reais por ano. Quando essas vagas permanecem vazias, o Estado perde capacidade técnica justamente em uma área crítica para o país”, afirma.
Os Analistas em Tecnologia da Informação ocupam funções centrais na infraestrutura digital do Estado. São responsáveis pela gestão e fiscalização de contratos bilionários, pelo desenvolvimento de sistemas, governança digital, segurança da informação e suporte técnico em mais de 200 órgãos federais.
Apesar da relevância institucional, a carreira enfrenta há anos dificuldades para atrair e manter quadros especializados. As convocações realizadas em 2025 e 2026 tornaram esse quadro ainda mais visível.
Dados da Escola Nacional de Administração Pública mostram que, em 2025, quase 500 candidatos foram convocados para preencher 300 vagas iniciais. Desses, apenas 217 iniciaram o curso de formação e, ao final, somente 169 efetivamente tomaram posse.
Em 2026, duas novas convocações mobilizaram mais de 700 candidatos do cadastro de reserva. Foram ofertadas 420 vagas, mas apenas 237 aprovados demonstraram interesse suficiente para iniciar o curso de formação.
Segundo a Associação Nacional dos Analistas de Tecnologia da Informação, a evasão elevada indica que muitos aprovados preferem seguir em outras carreiras públicas ou migrar para o setor privado, onde as condições salariais são significativamente mais competitivas.
A entidade aponta que profissionais com perfil equivalente no mercado de tecnologia chegam a receber, em média, até três vezes mais do que a remuneração inicial oferecida pelo governo federal. Há ainda diferença relevante em relação a outras carreiras públicas de nível semelhante, nas quais o salário de entrada pode ser até duas vezes superior ao pago aos ATIs.
Outro fator apontado como desestimulante é o modelo de ingresso na carreira. Atualmente, os convocados precisam participar de um curso de formação presencial em Brasília, com dedicação exclusiva por três a quatro meses.
Durante esse período, os candidatos recebem cerca de R$ 5 mil mensais — aproximadamente metade da remuneração inicial do cargo efetivo.
Para profissionais já inseridos no mercado de tecnologia, muitos em regime remoto ou recebendo salários superiores, a exigência de mudança temporária para Brasília e a interrupção de vínculos profissionais se tornam obstáculos concretos à adesão.
A dificuldade de preenchimento ocorre justamente quando o governo federal intensifica o discurso de modernização administrativa, expansão de serviços digitais, uso de inteligência artificial e implementação de políticas de proteção de dados, como a Lei Geral de Proteção de Dados.
Para Marlon Prudente, analista em tecnologia da informação do Ministério de Minas e Energia, há um descompasso evidente entre a ambição institucional e a política de pessoal voltada à área tecnológica.
“Nos últimos anos, o governo ampliou iniciativas de digitalização e de transformação digital da administração pública. Mas a política de gestão de pessoas para a área de tecnologia ainda não acompanha essa prioridade estratégica”, afirma.
Diante do risco de novas desistências e da dificuldade de retenção dos profissionais já em exercício, entidades representativas defendem uma revisão mais ampla da carreira.
Entre as propostas em discussão estão a reestruturação salarial, aceleração da progressão funcional, reposicionamento de servidores em níveis mais avançados e atualização do modelo de ingresso.
Especialistas alertam que, sem mudanças concretas, novos concursos podem repetir o mesmo padrão observado no CNU: grande procura inicial, elevada aprovação formal e baixa ocupação real das vagas.
No centro do debate está uma pergunta cada vez mais presente dentro do próprio governo: como sustentar uma agenda de transformação digital sem garantir atratividade mínima para quem deve executá-la?