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Sobradinho

Guima e o Paulinho Boca Mole

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Lá estava o Gilmarildo, tipo serelepe, na Banca do Guima. Tinha ido comprar jornal e jogar conversa fora, pois ali é ponto de encontro de desocupados da bucólica Sobradinho, no Distrito Federal. No entanto, apesar do clima amistoso entre os frequentadores, quase ninguém suportava as chatices da dona Sônia, bem como as do Paulo, o “Bebinho do Banco do Brasil”, vulgo BBB, mas também conhecido como PBM (Paulinho Boca Mole), haja vista a tagarelice do sujeito.

Enquanto o PBM e a dona Sônia malhavam a língua para saber quem era o campeão das abobrinhas, Gilmarildo e Bin Laden, outro que batia ponto no local, apenas observavam, eis que o Guima foi atender um novo cliente que, por esses raríssimos acasos que acontecem a todo instante, se chamava Paulo. Um gajo aparentemente simpático, sorriso franco, olhos miúdos, mas atentos.

O problema é que o sujeito não parava de falar, como se necessitado de contar toda a sua vida para o Guima, que sorria amarelo para não perder o novo freguês. Que entrasse na disputa com o BBB/PBM e a dona Sônia. Era capaz de dar uma surra verborrágica nos dois.

Sem perceber a própria inconveniência, o homem nem parecia se importar se havia ou não ouvidos para tantos termos. O importante era continuar falando enquanto existissem palavras no dicionário e, caso acabassem, certamente se embrenharia por neologismos. E foi aí que ele percebeu que, por descuido ou não, o Guima começou a chamá-lo de PBM.

O novo cliente, a princípio, imaginou que seus ouvidos tivessem escutado demais ou, então, equivocadamente. Porém, não tardou, o dono da banca disse novamente.

— Guima, não entendi.

— Não entendeu o quê?

— Já é a quinta vez que você me chama de PBM.

— É?

— É!

Toda a clientela voltou os olhos para aquele diálogo. Temiam até pela integridade física do Guima. Todavia, o comerciante, esperto que nem macaco-prego, encontrou uma saída.

— Ah, é que PBM quer dizer Paulo Bom Menino.

Além de se sair bem, o Guima conquistou o novo freguês. O problema é que, a partir de então, ele se juntou à dona Sônia e ao PBM original. E o trio, quando resolve fazer conferência na mais afamada banca de jornal de Sobradinho, se apropria de todas as falas. E haja ouvido para tanta ladainha!

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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