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Os castos

Heróis de Hollywood abominam sexo para manterem forma

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Juan Sanguino/Via El País - Carolina Paiva, Edição

No segundo episódio de WandaVision (2021, Disney+), a super-heroína protagonista fica grávida depois de beijar seu marido. Com essa piada, a Marvel pretendia parodiar o moralismo das comédias da TV americana dos anos sessenta, cuja estética a série estava reproduzindo, mas a verdade é que esse beijo foi a coisa mais picante que ocorreu em toda a saga.

Na semana passada estreou (em cinemas e no Disney+) Viúva Negra, outro filme da Marvel, concentrado desta vez na personagem interpretada por Scarlett Johansson. Essa espiã russa está na franquia desde Homem de Ferro 2 (2010), e o curioso é que entrou na qualidade de componente erótico: tanto Tony Stark (Robert Downey Jr.) como seu assistente Happy (Jon Favreau) observavam Johansson com luxúria, comentavam o quanto era atraente e até buscavam na internet fotos dela de roupa íntima.

Homem de Ferro 2 foi distribuído pela Paramount e, além disso, em uma Hollywood anterior ao movimento #MeToo. Quando a Disney absorveu a Marvel, em 2012, os Vingadores se tornaram um grupo celibatário. E não só eles. Os super-heróis no cinema atual não só não têm relações sexuais, como nem parecem sentir desejo.

Cineastas como David Cronenberg e Pedro Almodóvar lamentaram essa deserotização. “São feitos muitos filmes de super-heróis e não existe sexualidade neles. São castrados. Seu gênero é indeterminado, o que importa é a aventura. Mas o ser humano tem uma grande sexualidade”, assinalou Almodóvar durante uma palestra no Lincoln Center. Esse “gênero indeterminado” de que fala o diretor espanhol pode ser devido ao fato de que, para conseguir a igualdade entre homens e mulheres e evitar polêmicas a todo custo, a única ideia que a Marvel teve foi acabar com a libido de todos os seus super-heróis.

“Essa é a atitude geral que Hollywood adotou depois do #MeToo. Parece que não sabem dotar uma mulher de sexualidade sem humilhá-la, por isso optaram por dessexualizar todo mundo”, afirma a sexóloga Paula Álvarez. “É como se Hollywood tivesse colocado os personagens heterossexuais no armário. Em Modern family [série da rede ABC, também pertencente à Disney, transmitida entre 2009 e 2020], Mitch e Cam eram um casal homossexual, mas nunca se beijavam nem se acariciavam ou demonstravam carinho. Agora isso acontece com todos os personagens, tanto com os gays como com os heterossexuais.”

Nem sempre foi assim. Em Superman II (1980), Lois e Clark chegaram a transar na Fortaleza da Solidão. Em Batman: o Retorno (1992), Bruce Wayne e a Mulher-Gato canalizavam sua tensão sexual trocando tapas (e arranhões, chicotadas e lambidas). No Universo Cinematográfico da Marvel, inaugurado em 2008 com Homem de Ferro, as únicas alusões ao sexo o apresentam como algo perigoso (Hulk adverte duas mulheres, Betty Ross e a Viúva Negra, de que elas colocariam suas vidas em perigo se transassem com ele) ou como sintoma de infelicidade (Tony Stark vai para a cama com uma jornalista como sinal de sua imaturidade, Peter Quill faz o mesmo com uma extraterrestre rosa em Guardiões da Galáxia).

Com essa deserotização, na verdade, a Marvel não pretende proteger as crianças, e sim evitar represálias dos pais. O investimento exigido pelas superproduções implica abranger o maior público possível, de todas as idades e de todos os países. Isso inclui a China, hoje o maior mercado cinematográfico do mundo, no qual os filmes devem passar pelo crivo de um comitê censor do Governo.

O paradoxo é que, embora os super-heróis do cinema sejam menos sensuais do que nunca, suas estrelas são mais desejáveis do que nunca. Até os corpos de seus atores coadjuvantes estão trabalhados ao máximo. Chris Pratt e Paul Rudd compartilharam no Instagram o resultado de suas rotinas de exercícios para Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, respectivamente, embora depois aparecessem sem camisa por apenas alguns segundos no filme —e embora fosse de se esperar que seus personagens, ambos carinhas simpáticos sem nenhuma vaidade, tivessem uma certa barriguinha.

Os corpos de Pratt e Rudd foram tratados pela imprensa e pelos fãs como um fetiche mais admirável do que sexual. A Marvel renunciou ao sexo, mas não ao culto ao corpo: a Viúva Negra surgiu com as costas arqueadas nos cartazes promocionais e o Capitão América apareceu em Guerra civil treinando com uma calça de moletom tão agarrada às nádegas que ficou claro que não tinha nada por baixo. Mas o objetivo da Marvel parecia ser o de apresentar Chris Evans não como objeto de desejo sexual, e sim aspiracional. O interesse não é que o público se empolgue com a ideia de fazer sexo com eles, mas com a ideia de ser como eles.

Até pouco tempo atrás, o estúdio rival da Marvel, a DC, teve um diretor criativo, Zack Snyder, igualmente obcecado com a musculatura masculina: em seus filmes, Batman e Superman (Ben Affleck, Henry Cavill) eram vistos nus no chuveiro ou na banheira, mas não iam nem vinham de se deitar com ninguém. A câmera de Snyder não sente desejo, só inveja.

A jornalista Raquel S. Benedict, em seu ensaio Everyone Is Beautiful and No One Is Horny (“todo mundo é bonito e ninguém tem tesão”), compara os corpos musculosos da Hollywood atual, e de outras áreas da cultura, com casas projetadas para ser reformadas e se valorizar. “Os corpos já não são veículos para sentir prazer, são um conjunto de destaques: abdominais, abdutores. E esses destaques não existem para tornar nossa vida mais confortável, mas para aumentar o valor do nosso capital. Os corpos são investimentos que devemos otimizar para conseguir… o que, exatamente?”.

O corpo é tratado hoje como uma ferramenta de autoafirmação, prossegue Benedict, o que explica que a expressão “fazer exercícios” tenha sido substituída por “treinar”. Esse verbo sugere que existe uma missão: o esporte já não é um fim em si só, pelo prazer, mas um meio para conseguir algo mais. A jornalista vincula essa mentalidade às raízes culturais americanas: “Pode haver algo mais cruelmente puritano do que criar um ideal sexual que, por sua vez, deixa a pessoa incapaz de desfrutar do sexo?”.

Em sua análise da ausência de sexo no cinema comercial, Benedict aponta A origem (2010) como um dos exemplos mais absurdos. Sua trama segue um grupo de profissionais que se infiltra nos sonhos de um multimilionário para mudar seu comportamento: o filme consiste em tiros, carros e uma patrulha de esqui. “Como se pode entrar nos níveis mais profundos do subconsciente de um milionário e não encontrar um pesadelo psicossexual edipiano e depravado?”, pergunta a jornalista.

Nos anos setenta, Superman se mudava para Metrópolis e descobria o que era ser adulto: trabalho, solteirice, magnatas, moradia, crises econômicas, interesses políticos, dificuldade de viver em sociedade. Já quanto aos super-heróis da Marvel, a única coisa que eles têm de adultos é o fato de serem interpretados por atores com mais de 30 anos, mas para todos os efeitos são pré-adolescentes. A espinha dorsal da saga Vingadores, a jornada de Tony Stark, que deixa de ser um Don Juán dissoluto para se tornar um líder santificado, exigia que o herói renunciasse à vida sexual. O sexo na Marvel é sempre insano ou vergonhoso. O único sexo saudável parece ser o inexistente.

O caso do Capitão América leva isso ao limite: ele é diretamente virgem, talvez para evocar a dignidade do celibato monástico (que Christopher Nolan também sugeria em Batman Begins) ou para simbolizar esse ideal americano de ter tudo de melhor pela frente. O Capitão América observava sua amada, a agente Peggy Carter, com a mesma castidade platônica com que Petrarca adorava a donzela Laura. Só que Petrarca estava escrevendo no século XIV.

“Que o Capitão América seja virgem é uma ideia que vem da cultura judaico-cristã: ela o apresenta como um ser puro e luminoso, assim como é representado tradicionalmente Jesus Cristo”, assinala Paula Álvarez. “O sexo sempre atrapalha a missão do herói, como quando um jogador de futebol perde rendimento e a torcida culpa sua mulher ou sua namorada, achando que se o herói não vence é porque faz sexo e que deveria ter guardado toda a sua força para conseguir sua façanha. Com o personagem-título do Hércules da Disney acontecia a mesma coisa, ele passava de zero a herói, mas Mégara era a tentação, aquela que se interpunha entre ele, o heroísmo e a união com sua família no Olimpo.”

Muitos super-heróis atuais reformulam o mito americano do herói solitário (John Wayne, Dirty Harry, Rambo), aquele que abraçava o celibato por questões pragmáticas: se não havia mulher no meio, ele poderia se lançar em sua missão suicida sem distrações. Porque, como explicou D. H. Lawrence em Estudos sobre a literatura clássica americana, todos os guerreiros americanos descendem do Natty Bumppo de James Fenimore Cooper, uma figura de castidade implacável e violência justificada.

A única relação sexual retratada no cinema recente de super-heróis, a de Mulher-Maravilha 1984 (2020), provocou críticas na imprensa e nas redes sociais: a heroína transa com seu falecido namorado graças ao fato de ele ter ressuscitado e assumido o corpo de outro homem. Alguns espectadores viram isso como uma super-heroína abusando sexualmente daquele corpo inocente. Essa polêmica foi um dos fatores que fizeram o filme ser motivo de piada e deu razão à Marvel: na dúvida, é mais prudente eliminar totalmente o sexo.

E isso também afeta a vida real. Quando foram divulgadas, semanas atrás, fotografias do diretor de Thor: Love and Thunder, Taika Waititi, aos beijos com a atriz Tessa Thompson e com a cantora Rita Ora depois de uma noite de farra, sugerindo uma relação a três, a Disney os repreendeu para que parassem com isso. Uma fonte da equipe de filmagem afirmou: “Essa não é a imagem que [os produtores] procuram associar a uma de suas maiores franquias”. Sabemos disso.

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