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Cultura

Homero criou a Helena de Troia; o Brasil, a da trova

Eduardo Monteiro

Foi há 95 anos. Mais precisamente, noventa e cinco anos e um dia. A data, 13 de agosto de 1924. O fato, o nascimento para o undo de uma brasileira humilde, mas dotada de fabulosa genialidade e de incrível coragem revolucionária. Helena, filha de um paraguaio e uma mato-grossense, nasceu em uma época, na qual a execução de instrumentos musicais era prerrogativa dos homens.

Helena Meirelles, que nunca soube ler nem escrever, aprendeu a tocar viola caipira, sozinha, apenas observando seu tio Leôncio e boiadeiros das redondezas da fazenda onde morava, em Mato Grosso do Sul.

Obcecada pela música, casou-se aos dezesseis anos, mas a liberdade para ser violeira não veio e, após o segundo casamento aos 21, pegou a estrada e foi tocar viola em bares e até em prostíbulos na região do Pantanal e interior de São Paulo, quando perdeu contato com a família por mais de 30 anos.

Helena deu à luz 11 filhos, que segundo consta, vieram ao mundo em partos realizados por ela mesma, sem ajuda de ninguém. Os filhos foram ficando pelo caminho com famílias conhecidas, enquanto ela seguiu seu ideal, seu sonho, seu caminho de violeira, cantora e compositora.

Na década de 1970, reencontrou sua família e mudou-se para Santo André, onde passou a residir com o terceiro marido e alguns dos filhos. Seu sobrinho, o produtor musical Mário Araújo, gravou uma fita cassete, juntou uma foto, a palheta feita de chifre de boi que ela usava para tocar, e enviou o pacote para a famosa revista americana Guitar Player.

Não demorou para que Helena, aos 69 anos, se tornasse o destaque musical de 1993 e a única brasileira a figurar na lista dos melhores guitarristas do mundo, ao lado de nomes como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Roger Waters, jimmy Page, BB King, e outros.

O estilo absolutamente original, inspirado na música sertaneja, ritmos folclóricos do Mato Grosso do Sul e influências da música paraguaia, moldou a técnica de Helena Meirelles, com afinação distinta da utilizada na viola caipira.

Especialmente nas apresentações, ela utilizava a viola dinâmica, também usada por repentistas e cantadores do Nordeste, diferente das violas caipiras que ouvimos no sudeste e centro-oeste do Brasil.

Morreu em 2005, aos 81 anos, após gravar três discos, e ter vivido os últimos tempos com agenda de shows e eventos lotada. De personalidade forte e temperamento explosivo, Helena foi autodidata em tudo na vida, se tornou um fenômeno mundial das cordas, mas a invisibilidade provocada pelo machismo de sua época, fará com que a cabocla Helena Meirelles, ainda leve anos para ser compreendida e admirada plenamente por sua magnífica obra e seu virtuosismo.

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