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Bolsonaro boicota guerra à Covid

Hora H pode ser PQP e também I de impeachment

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Elisa Mattos*

Com a má vontade de sempre, quando o assunto é a Pandemia, o governo iniciou a semana testando, mais uma vez, a paciência dos brasileiros que esperam ansiosos, pela vacina que vai ajudar a combater a Covid-19, quiçá como imunizante permanente.

O general que ora ocupa o Ministério da Saúde, ironizou ao falar sobre o calendário de vacinação. Disse Eduardo Pazuello que a imunização da população será no “Dia D” e na “Hora H”.

A declaração foi vista com frustação pela classe científica, que deu duro até agora para oferecer uma imunização em massa o mais rápido possível; despertou repliques dos opositores do governo Bolsonaro e espanto dos que dependem de uma atitude racional da esfera federal para tocar a vida.

Nas redes sociais, “Dia D e na Hora H” viralizou. Outras letras se uniram ao D e ao H, como o F, por exemplo, de “ferrados”. Ou o I de impeachment, PQP, VTC, e tantas outras de livre interpretação.

Dois dias depois, Pazuello vem à público anunciar o que já poderia ter feito antes. Afirmou que a vacinação terá início ainda em janeiro e que um avião de uma grande empresa foi contratado para buscar na Índia, duas milhões de doses da vacina do laboratório Serum.

O imunizante é desenvolvido pela AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford. A encomenda deve chegar no sábado e ficará armazenada no aeroporto do Galeão, até que o governo decida o destino de tão preciosa carga.

Enquanto isso, as atitudes descontroladas e desgovernadas da equipe comandada por Jair Bolsonaro são destaque negativos de um importante estudo que analisa o respeito aos direitos humanos em mais de 100 países.

De acordo com o relatório anual da Human Rights Watch, “Bolsonaro tentou sabotar medidas contra a propagação da pandemia de Covid-19”. O que muito de nós já sabíamos, agora está documentado para o mundo.

“A resposta do governo do presidente Bolsonaro à pandemia tem sido desastrosa. O presidente Bolsonaro, desde o começo, minimizou a gravidade da doença e, nesse momento, parece estar fazendo campanha contra a vacina”, diz o pesquisador Cesar Muñoz. O coronavírus já provocou mais de 206 mil mortes no Brasil. E infectou outras 8,1 milhões de pessoas.

A HRW ressaltou ainda no documento uma questão de extrema importância, mas que passa quase batida pelos veículos que divulgaram o relatório. A população negra é a que teve maior probabilidade de ser afetada pela doença. E os motivos não são difíceis de levantar.

Diz o relatório: “Brasileiros negros tiveram maior probabilidade do que outros grupos raciais de apresentarem sintomas consistentes com Covid-19 e de morrerem no hospital. Entre outros fatores, os especialistas atribuíram essa disparidade às taxas mais altas de informalidade entre trabalhadores negros, impedindo muitos de trabalharem de casa, e à prevalência de doenças pré-existentes.”

Apesar de maioria da população – 56% segundo o IBGE -, os cidadãos negros são os que enfrentam as piores condições de vida, consequência do racismo estrutural que vigora no Brasil. É a parcela mais pobre da sociedade, dos desempregados, dos trabalhadores informais ou ativos em trabalhos básicos, como limpeza, segurança pública, cozinhas, residências. São dependentes de transporte público, sujeitos a aglomerações e à irresponsabilidade dos negacionistas, que desprezam máscaras e distanciamento. Sem acesso a home office, a auxilio digno do governo, a atendimento de saúde de qualidade.

Os negros também compõem mais de 60% da população carcerária do país, citada com preocupação no relatório do Humans Rights Watch como uma das mais impactadas pelo Covid-19. Assim como os povos indígenas, eles foram alvos de tentativas do governo federal de frear os esforços contra a pandemia.

A vacinação deve ser um direito de todos, uma política pública de proteção aos cidadãos. Começando a rede de imunização, temos que ficar atentos de como as vacinas serão distribuídas e em quem serão aplicadas. Já corre à boca miúda que existem filas de espera em laboratórios particulares. Numa sociedade desigual, os privilegiados serão os primeiros. É o velho jeitinho brasileiro de colocar a mão no bolso: “Pagando, que mal tem?“

*Jornalista e escritora, dirige o portal www.elisamariamattos.com

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