Esperando as urnas
Ibaneis dá bastão a Celina e prepara corrida por uma cadeira no Senado
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A política de Brasília é feita de ciclos, onde alguns se encerram com alívio, outros com expectativa. O de Ibaneis Rocha (MDB), ao deixar o Palácio do Buriti, parece caminhar para uma transição rara de que não rompe, mas se prolonga em outra arena.
Não se trata de um momento trivial. Ao entregar o governo à vice, Celina Leão, que assume com a caneta cheia e o desafio de manter a engrenagem girando, Ibaneis tenta fazer algo que poucos conseguem na política brasileira, que é transformar gestão em capital eleitoral transferível, e, mais do que isso, reaproveitável em nível federal.
O discurso é simples, quase provocativo. Ele entrou “limpo” e sai “perfumado”. A frase, de efeito, carrega mais do que um pragmatismo histórico. `traduzida nos círculos políticos como uma resposta direta a uma oposição que, ao longo de dois mandatos, apostou no desgaste que não veio na intensidade esperada. Ao contrário, o agora ex-governador construiu uma narrativa de entregas concretas, com obras visíveis, intervenções urbanas, reorganização administrativa e uma presença constante no cotidiano da cidade.
Esse conjunto forma o alicerce de uma candidatura ao Senado que não nasce do improviso, mas de um cálculo político bem desenhado. Em um cenário em que o eleitor do Distrito Federal valoriza resultados tangíveis, a exemplo de asfalto, hospitais funcionando, escolas entregues e sensação de segurança, Ibaneis aposta na memória recente como ativo eleitoral.
Não bastasse isso, há um elemento adicional que joga a seu favor, constatada n a continuidade. A ascensão de Celina Leão ao governo não representa ruptura, mas extensão. Se a nova governadora conseguir sustentar o ritmo administrativo e evitar turbulências, cria-se um efeito de retroalimentação política. O sucesso dela reforça o legado dele e, por consequência, fortalece seu projeto eleitoral.
É sabido, claro, não há caminho sem pedras, porque ao deixar o cargo, Ibaneis também perde a blindagem natural da máquina pública e se torna alvo mais direto e vulnerável de adversários. Ao mesmo tempo, a disputa pelo Senado tende a ser dura, marcada por tentativas de desconstrução e pela inevitável judicialização que ronda candidaturas competitivas.
Ainda assim, há um ponto que diferencia sua posição, já que ele não disputa uma vaga como aposta, mas como continuidade de protagonismo. Não pode-se dizer que se trata de um salto no escuro, mas uma mudança de trincheira.
Se conseguir converter sua gestão em narrativa convincente, e também se a sucessão no Buriti se mostrar estável, Ibaneis Rocha entra na corrida ao Senado não apenas como candidato, mas como favorito competitivo. Um nome que carrega consigo não só um histórico, mas uma marca de governo. E, na política, quando marcas são bem construídas, costumam atravessar mandatos., consequentemente, urnas também.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras