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Leoa tem sede de sangue

Ibaneis sai da festa, leva o bolo, a cereja e deixa a conta para Celina pagar

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

O problema da política brasileira nunca foi apenas a traição. Trair, em política, faz parte do cardápio. O drama verdadeiro começa quando o traidor acha que continua dono da casa depois de entregar as chaves. E é exatamente esse o cheiro que sobe do Palácio do Buriti desde que o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) resolveu abandonar o barco no meio da tempestade, deixar a sucessora segurando o leme e manter os tentáculos espalhados pelos conveses do governo.

Ibaneis saiu, mas quis continuar mandando. Renunciou para disputar mandato legislativo, fez pose de estadista, vestiu o figurino de líder nacional do MDB, mas deixou para Celina Leão (PP) uma herança que mais parece um terreno minado, representado pela crise monumental envolvendo o BRB e o Banco Master, um rombo administrativo que ninguém imaginava existir nessa dimensão, além de uma máquina pública loteada por aliados que ainda batem continência ao antigo chefe.

A fala do ex-governador escancarou o roteiro. Quando Ibaneis afirma que o MDB “não perderá a hegemonia” no Distrito Federal e sinaliza um “realinhamento”, ele não está fazendo análise política, mas mandando recado. Está dizendo, em português claro, que considera Celina apenas uma ocupante temporária da cadeira, do tipo síndica provisória de um condomínio que ele acredita ainda lhe pertencer.

Só que a política tem uma ironia cruel. É que vice que assume o governo deixa de ser vice no instante em que senta na cadeira principal. E Celina parece ter entendido isso. A partir daí, a resposta dela foi dura porque precisava ser. A governadora não gravou apenas um vídeo, mas literalmente promoveu um desembarque político transmitido em rede social.

Ao afirmar que assumiu um governo mergulhado numa crise histórica, com problemas gravíssimos no BRB, desequilíbrio nas contas públicas e uma estrutura administrativa comprometida, Celina rompeu o pacto silencioso da gratidão eterna, coisa que raramente acontece em Brasília.

Ninguém precisa se aprofundar para fazer uma análise realista do vídeo de Celina. Ela deixou claro que enquanto Ibaneis fala em eleição, hegemonia partidária e rearranjo de poder, a governadora se apresenta como alguém obrigada a apagar incêndios deixados pelos antigos donos da festa. A metáfora é inevitável, porque Ibaneis saiu antes do fim do baile, levou o bolo, carregou a cereja e deixou a conta sobre a mesa para a sucessora pagar.

Mas há outro detalhe explosivo. A governadora sabe que enfrenta não apenas um adversário externo, mas uma espécie de ocupação interna. Grande parte da estrutura do governo continua povoada por quadros ligados ao ex-governador. Gente que atende mais ao passado do que ao presente. Gente interessada em negócios, influência e sobrevivência política. Em qualquer governo, isso produz sabotagem silenciosa, vazamentos seletivos e crises fabricadas.

Celina percebeu que ou assume definitivamente o comando ou será devorada lentamente pelos mesmos grupos que a ajudaram a chegar ao poder. Como Brasília já viu esse filme, a Leoa mostrou as garras. Rugiu alto e fez o MDB de Ibaneis tremer. Com isso, políticos que imaginavam controlar sucessores por controle remoto acabaram descobrindo que o poder tem uma característica quase biológica, porque rejeita tutela. Quem ocupa o trono não aceita ser marionete por muito tempo, e quem tenta puxar as cordas normalmente termina enforcado nelas.

O mais curioso é que o discurso do “realinhamento” do MDB soa menos como estratégia partidária e mais como chantagem preventiva. Um aviso de que, se Celina não aceitar a submissão, haverá candidatura alternativa ao Buriti. É o velho método brasiliense de primeiro oferecer parceria; depois cobram obediência; por fim, vendem a ameaça.

Só que existe um detalhe ignorado por muitos caciques da capital da República. Trata-se do eleitor que costuma tolerar quase tudo, menos a impressão de que alguém quer governar sem aparecer. O cidadão pode até não entender os labirintos do BRB, do Banco Master ou os bastidores do Buriti, embora entenda perfeitamente quando um ex-governador tenta agir como proprietário do governo alheio.

Celina, gostem ou não dela, começou a construir exatamente a narrativa que pode salvá-la politicamente, agindo como a governante que herdou uma máquina contaminada e decidiu enfrentar os próprios padrinhos. Do alto dos meus 56 anos de jornalismo em Brasília, observei que em política, romper com adversários dá trabalho; porém, romper com antigos aliados costuma custar sangue. Estamos apenas começando a assistir essa guerra. E a governadora, de sobrenome Leão, está mostrando que tem sede de vitória. Custe o sangue de quem custar. Menos o dela.

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Assista ao vídeo de Celina Leão:

 

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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