Moais
Imaginação é bicho perigoso
Publicado
em
Imaginação é bicho perigoso. Hoje é domingo de Páscoa, pensei na ilha de Páscoa. Sei que pertence ao Chile e que assinala um dos limites da expansão polinésia pelo Pacífico. Também sei que recebeu esse nome porque navegadores europeus nela desembarcaram num domingo de Páscoa, em 1722 (guglei). E mais, sei que nela se erguem cerca de 900 gigantescas estátuas de pedra (também guglei), os moais. Alguns estão junto ao litoral, outros no interior da ilha; alguns têm chapéus ou penteados elaborados, outros não; alguns estão cobertos de signos da escrita rongorongo, até hoje indecifrados, que lembram os hieróglifos egípcios, enquanto noutros a pedra está lisa; a maioria está de pé, mas também há estátuas sentadas, e por aí vai. A diversidade é grande, e até hoje não se sabe por que foram construídas – talvez representem divindades locais, como o deus Make-make, ou os ancestrais do povo rapanui – os habitantes originais da ilha.
Joguei tudo isso num liquidificador psíquico e em pouco tempo vi coelhinhos em tangas havaianas, perseguindo coelhinhas em trajes de hula-hula, que moviam os quadris nos movimentos estilizados e sedutores da dança polinésia. Quando as capturavam, crau. Entre uma trepada e outra, ambos depositavam ovos de chocolate junto aos moais.
Dei uma risadinha, lembrando da velha piada pascoal, “Mãe, Jesus era um coelho?”. Ainda sorrindo, esqueci da Páscoa e liguei a televisão para assistir a Flamengo x Santos.
Pouco depois de começar o segundo tempo, um moai se materializou na sala do meu muquifo. Era enorme, muito maior do que eu (o que, diga-se, não é grande vantagem, sou de parca altitude), quase tocava o teto do apartamento. Levei um susto, claro, que logo deu lugar a uma sensação de familiaridade, quando a estátua começou a falar em carioquês castiço – na verdade, no dialeto de uma torcida organizada do futebol carioca, qualquer uma:
– Porra, mermão, sacanagem sua, mandar aquela porrada de coelho pra Te Pito O Te Henúa –[“umbigo do mundo”, uma das designações da ilha atribuídas pelos rapanui]. Eles tão distribuindo ovos de chocolate, é maneiro, mas tão transando adoidado e cagando por toda parte, tá ligado? Dá pra levar seus coelho embora, pra… pro raio que os parta?
Percebi que a mudança de “pra” para “pro” representou um esforço, bem-sucedido, de engolir um palavrão e substituí-lo por uma expressão socialmente mais aceitável. Mas não respondi, estava preocupado, o Santos acabara de abrir o placar no Maraca.
– Ficou surdo, amizade? Vai sumir com a porra dos seus coelhos ou não?
Olhei pra cima e vi o moai me encarando, a expressão fechada. Com um esforço, concentrei-me e dissolvi a coelharada que antes havia imaginado. Aparentemente, funcionou: as feições de meu visitante se suavizaram.
– Legal, acabei de saber que os bichos sumiram, sem auê, sem B.O..
Dei um suspiro de alívio – eu não ia levar uma surra e meu Mengão acabara de empatar, em linda cabeçada de Pedro – e consegui responder:
– De nada, desculpe por ter imaginado coelhos dançando hula, transando e colocando ovos de Páscoa ao pé dos moais. Esqueci do detalhe da caganeira deles. Posso fazer uma pergunta?
– Tu ganhou esse direito, meu prezado.
Mas não perguntei nada num primeiro momento, estava ligado no jogo, o Flamengo acabara de virar com uma perfeita cobrança de pênalti por Jorginho. Afinal, com esforço, disparei:
– Qual o significado dos moais? Por que alguns têm chapéus e outros não? Por que algumas estátuas têm inscrições e outras não?
O gigante me olhou, com pesar, e confessou:
– Não tenho permissão pra responder a essas questões, mas posso te dar algo melhor, a chave para decifrar a escrita rongorongo. – Materializando uma grande tabuleta com inscrições nessa escrita enigmática, começou a ensinar:
– Tá vendo aquele signo em destaque? Ele significa…
– Golaço!!!
Não era esse o significado do signo. Eu é que tinha berrado, ao ver o belo gol de Lucas Paquetá, o terceiro da vitória do Mengão diante do Santos.
O perrengue foi que meu grito cortou o elo psíquico estabelecido entre moi e o moai (belo jogo de palavras, né não?). Ele começou a se desfazer, a tabuleta igualmente. Antes de sumir de vez, porém, o gigante comentou, desdenhoso:
– Vai gostar de futebol assim no… na…
Não deu tempo de terminar a frase. Melhor assim.
Então foi isso. Infelizmente, não recebi a chave para decifrar a linguagem rongorongo, do povo rapanui.
E, felizmente, meu Flamengo ganhou.