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Carro alegórico 22

Independência de Dom Narciso I virou carnaval fora de época

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto Marcello Casal Jr

Após 199 anos de verdadeiro simbolismo e de desfiles cívicos envolvendo toda a sociedade, incluindo sobretudo os militares ciosos e cientes de sua importância para a nação, eis que, finalmente, tivemos um 7 de Setembro diferente. Tudo bem. Acho que precisávamos de um carnaval fora de época. A lamentar só o fato de ter ocorrido justamente no bicentenário do Dia da Independência e bem na frente do estupefacto (na grafia da Pátria Mãe) presidente de Portugal, o gajo Marcelo Rebelo de Souza. Aliás, ainda não sei porque os representantes do carro alegórico 22 não trouxeram como destaque o coração de Dom Pedro. Seria a glória para Dom Narciso I, o único e máximo discípulo da dinastia do rei Waldemar III, que, estranhamente, não apareceu fantasiado de presidiário.

O coração de Pedro I ficou escondido porque, acredito, estava sangrando com a carnavalização do ato que protagonizou em 1822. Melhor que tenha sido assim. As caveiras de Pedro I, Pedro II, dona Maria Leopoldina e dona Tereza Cristina de Bourbon ficariam ruborizadas com o presidente da República que ajudaram a criar elogiando o próprio pinto. Infelizmente, é a nossa realidade. A expectativa, conforme um militar de alta patente, é esse mesmo presidente dando um golpe de estado. Ou seja, tanta firula para nada. Para sorte do mundo e do povo brasileiro, ele (Dom Narciso I) discorreu sobre a qualidade do falo para os mesmos 30% de eleitores fixos de 2018. São os chamados fanáticos, algo como, respeitosamente, os bobos da corte. Enfim, cão que ladra não morde.

O carnaval bolsonarista talvez valha um enredo para a Festa de Momo oficial, aquela que normalmente ocorre entre os meses de fevereiro e março. Enquanto o Brasil e o mundo assistia a um show de fanfarras e de bravatas, entremeado com os discursos da primeira e provavelmente a antepenúltima dama (outra anomalia, já que ela não fala em nome do povo), o desfile simbólico que se via era o do gado babão, que também atende pelo codinome de agronegócio. Aliás, a maioria desfilava pendurada nas tetas do pobre do contribuinte, cada vez mais empobrecido por conta dos devaneios pirotécnicos do suposto administrador do nosso rico e suado dinheirinho. Pois foi com esse mesmo din din que os ditos agronegociadores e demais pegadores de saco vieram a Brasília.

Despreocupados com as mazelas do país e cegos em relação à virilidade dos homens brasileiros, os loucos apoiadores ficaram ainda mais enlouquecidos com o discurso político-sexual do mito que idolatram. Boquiabertos e sedentos por conhecimentos físicos, a turma do cercadinho foi ao delírio ao ser informada que a genitália do mestre é imbrochável. Ou é imbroxável? Eu não pago pra ver, mas fiquei com sérias dúvidas, porque nunca tive necessidade de prosear a respeito de minha centimetragem erótica, tampouco de minha qualidade na alcova. É uma questão interna corporis. Na verdade, aprendi ainda menino, em plena atividade, que os homens de poucas palavras são os melhores. Pode ser o meu caso.

Sobre as dúvidas, faço minhas as palavras da escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Ninguém é mais arrogante, violento, agressivo e desdenhoso contra as mulheres do que um homem inseguro de sua própria virilidade”. Simples assim. Depois da volúpia demonstrada pelos fanáticos seguidores, entre eles os homens do agronegócio e os empresários que adoram o verde e amarelo, restou a maior das dúvidas: o que o presidente tem de mais forte? Será o discurso, a vontade de governar, o saco ou a genitália? Deixa pra lá. Como sou fiel a mim mesmo, prefiro minha insignificância. Brochuras à parte, o que realmente faltou ao mandatário brasileiro foi botar aquilo na mesa e dizer o que todo o país queria ouvir: como acabar com a fome, como reduzir os índices de desemprego e como devolver a inflação aos níveis de três, quatro anos atrás?

Sem mais delongas sexuais, opto pela definição do presidenciável Ciro Gomes sobre o Dia da Independência. Não é meu candidato, mas fecho com ele quando afirma que Jair Bolsonaro “transformou o 7 de Setembro dos anos da independência no mais desavergonhado comício eleitoral já feito neste país”. De minha parte, gostaria de informar ao presidente da República, a seu candidato a vice e aos tacanhos seguidores que uma pessoa demasiadamente inacessível, pedante e narcisista acaba se tornando desinteressante. Além disso, vale lembrar que um governo patriota é aquele que cuida do povo, que trata a todos igualmente. O país e sua bandeira não têm donos. Amém.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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