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Letícia

Inferno

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Letícia era uma garota de 22 anos. Morava na roça, mas isso não a impedia de gostar de dançar e de ouvir música, de qualquer tipo.

Certa feita, os moradores organizaram um mutirão para consertar o prédio da escolinha. Era (é) uma prática costumeira na zona rural, parcerias destinadas a realizar determinada obra ou mesmo plantações, capinagem e colheita. Toda a vizinhança se reunia; os homens faziam o trabalho, as mulheres preparavam a comida e as crianças traziam lenha para a fogueira, que à noite, era de lei, haveria festa e cantoria.

Letícia estava encantada, adorava escutar canções e toques de viola, violão e acordeão.

Nesse dia veio um acordeonista, filho do lindeiro do lado norte das terras de seus pais. Chamava-se Irineu e era um jovem de uns 24 anos, atraente, de olhos de um azul intenso. Estudava Direito na cidade grande, logo seria doutor.

Irineu tocava que era uma beleza, seduzindo Letícia. Seus olhares se encontravam, fazendo-a estremecer. O sanfoneiro também parecia encantado, todos perceberam o enleio dos jovens.

Terminada a cantoria, veio a comilança. Letícia foi chamada para servir o prato. Estava trêmula e emocionada. Quando foi despejar o vinho no copo do gaiteiro, este afastou a mão dela, segurando-a por um bom tempo.

– Prefiro um suco ou água.

Todos riram e lá do fundo uma voz zombou:

– Cachaça e vinho é que são bebidas de macho!

Letícia trouxe-lhe um suco de uva feito ali mesmo na fazenda, aproveitando para tocar de leve nas mãos dele.

Depois todos se despediram, pois no dia seguinte haveria mais trabalho. Na despedida, realizaram o ritual do povo simples da roça, apertando cada mão. Letícia estremeceu com o contato com o moço estudante, e tremeu todinha quando ele beijou respeitosamente sua mão. Sem dormir direito, sentiu a noite inteira os lábios quentes de Irineu, o futuro doutor.

Dias depois eram oficialmente namorados, não se largavam um segundo sequer. Ele a fascinava em tudo, e em pouco tempo a moça caiu em seus braços.

Irineu voltou para a capital, tinha de terminar os estudos, Letícia o esperava. Nas vindas à fazenda se encontravam, cavalgavam juntos, nadavam e amavam-se sempre que podiam, em locais discretos e isolados. Todos já esperavam o casamento, mas era preciso esperar a formatura, ela entendia. Nesse meio tempo havia cartas, ligações, tudo a que jovens que se amam têm direito.

Aproximava-se o dia da formatura. Letícia esperou o convite, nunca veio. Uma ligação apenas, dizendo que logo ele estaria na fazenda e fariam a comemoração. Letícia ficou um pouco frustrada, mas o amor era maior; ele sabia brincar com as palavras e a convenceu de seus sentimentos. De repente, ela informou:

– Querido, vamos ter um filho, não é maravilhoso? Ia contar antes, mas não quis atrapalhar seus estudos. Estou grávida de três meses.

Silêncio do outro lado da linha. Depois a ligação caiu. Letícia tentou novamente e ninguém atendia, passou horas tentando convencer-se de que era falta de tempo, seu amor devia estar mergulhado na correria dos preparativos da formatura.

Os meses passaram, nenhuma ligação. O bebê nasceu sem que o pai viesse conhecê-lo. Afinal, decidiu levar o bebê até a cidade grande, sabia o endereço dele. Chegando em frente ao portão, viu seu amado com uma mulher e uma menininha, parecia poucos meses mais velha que o seu filho.

Os olhos de Letícia encheram-se de lagrimas. Mas não se deixou abater, um sentimento forte de raiva tomou conta de seu peito.

– Cachorro sem vergonha! – disse para si mesma. – O monstro fez da minha vida um inferno, agora vou dar o troco, infernizar a vida dele!

Com o bebê nos braços, esperou Irineu sair, provavelmente para o trabalho. Correu para o portão da casa e chamou a mulher, que se preparava para entrar.

– Moça, que menininha linda. Como é o nome dela?

– Rosaura – respondeu a mulher com um sorriso.

– Por que não a chamou de Irineia, do nome do pai? O irmão dela se chama Irineu, que nem ele.

(Mentira, o filho de Letícia recebera o nome do avô, Joel.)

A mãe da menina olhou para o bebê no colo da outra mulher e viu olhos de um azul intenso, tão azuis quanto os da filha, tão azuis quanto os do pai da menina. Começou a chorar e entrou em casa.

Letícia afastou-se, com um sorriso vitorioso.

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