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Entrevista

Jornalismo e literatura

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

O jornalista Gilberto Motta entrevistou o escritor Gilberto Motta. Dois caras nascidos juntos e que foram seguindo jornadas distintas embora conjuntas. Hoje escrevem aqui para o Café Literário seus “rabiscos” e reinvenções muito além das “narrativas”.

— Caro escritor, a pergunta é de jornalista: Qual é a tua?

— A resposta é simples: experimentar todas as possibilidades.

— Tudo em torno das palavras?

— Sim, as palavras e a escrita. Sou e serei sempre um jornalista, um repórter. Os fatos e a construção de textos, o contar as histórias/estórias são os maiores desafios. Mas saquei bem cedo que tudo não passa de ficção. Ficaram apenas “narrativas”.

— Como assim?

— Assim, assado. Fatos reais viram ficções através das redes sociais (ou antissociais). Hoje, tudo não passa de narrativas. E narrativas não são os fatos reais, são relatos escritos contatados com o ponto de vista de quem os escreveu.

— Então, você nega o jornalismo dos fatos, a objetividade da realidade?

— Não, pelo contrário: reafirmo que todos os fatos pertencem à História e que o narrar jornalístico é outro papo.

— Jornalismo, então, é feito de mentiras, invenções?

— Não, longe dessa concepção. Os fatos são a essência, a ferramenta que possibilita as grandes reportagens. A questão é a linguagem e o meio de transmissão. Quando observo um fato é uma coisa; quando escrevo já é outra coisa.

— Você não está sendo incoerente: fatos ou invenções?

— Creio que não. Não há incoerência alguma. Fatos e invenções formam um conjunto de apurações, reflexões e ações que caracterizam o fazer jornalístico. Trabalho profissionalmente com as palavras desde minha adolescência (anos 70) e sempre enfrentei os fatos e as formas de contá-los. Eu jornalista vejo o assassinato de uma menina de 13 anos por um facínora também jovem e preciso contar a história. Tá. Conto na melhor forma direta possível. Depois, rumino os fatos e “mais frio” busco saber também a história do facínora: motivações, infância, traumas e sentimentos do cara (facínora, mas é uma pessoa). E aí começa a literatura, a possível ficção. De forma muitos caras incríveis já faziam isso nos anos 50, 60, 70 com o new jornalismo. E no Brasil, por exemplo, a Revista Realidade. Então, o que ficará é a Grande Reportagem, a crônica (gênero espetacular), muito além de contar “objetivamente” os fatos. A gente recria tudo e constrói uma história feita de pequenas estórias de vida. E então já é reinvenção. É ficção.

— Entendo. Então pra você, Gilberto Motta, o jornalismo acabou?

— Enquanto eu entendo o fazer jornalístico, escolas de comunicação e os meios de transmissão, creio que sim. Acabou e está sepultado. Não vemos mais Grandes Reportagens, textos humanos, visões diferenciadas, textos que saltam das páginas de papel – e hoje das páginas digitais dos tabletes e celulares. Não há. O que vemos são textos frios, “narrativas”, pastiches, água de salsicha, coisas armadas sem sabor, sem sacadas sobre os fatos. Escrever assim é dar graças e bênçãos para a I.A.

— O jornalismo acabou e você acabou junto com ele?

— Depois das redações, das ruas, de viver sempre como repórter mesmo quando estava na direção de equipes, dei aulas em universidades por muitos anos e me aposentei. Acabar não, continuo um repórter de olhar e sentidos atentos. Mas de fato, enquanto esse velho jornalismo arcaico e preso às oligarquias e monopólios de empresas de “comunicação” liberal, ainda lá do século XX, sim: acabamos. Eu acabei como jornalista por opção para não morrer em vida. Reinventei. Escrevo crônicas, poesias e todo tipo de “Fragmentos de Abobrinhas” (meu próximo livro). Mas escrevo liberto, o que sinto, reflito e construo com as palavras outras narrativas fora de ordem. Isto deveria ser o jornalismo quando centrado nos fatos. Mostre os fatos, mas não esconda a ficção, as pessoas, possibilidades de contar os fatos.

— Obrigado, Gilberto. Bem elucidativas as suas reflexões.

— Opa, apenas discordo: elucidativas, não… Talvez “complicativas”, sim.

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Gilberto Motta vive na pequena vila pesqueira da Barra do Embaú, litoral Sul de SC.

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