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Traduzindo do latim

Jornalismo sujo vive com dinheiro do Master

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Artes

Há quadrilhas que assaltam bancos, e outras, mais sofisticadas, que assaltam reputações. E Brasília, cidade que já defini como a capital erguida em concreto armado que aprendeu a usar gravata italiana, torna-se agora território fértil para um novo tipo de crime organizado, a que apelidei de banditismo travestido de jornalismo investigativo que não apura fatos, mas holerites; vem a ser um grupo que se recusa a buscar a verdade, gastando tempo farejando contratos públicos como cães treinados para localizar carniça, sem sucesso.

Aprendi cedo, ainda nos corredores esfumaçados da velha imprensa, que jornalismo não é profissão para covardes. Muito menos para mercenários. Aos 56 anos de batente, vendo governadores caírem, ministros serem engolidos pela própria soberba e senadores trocarem a liturgia da Tribuna pela tornozeleira eletrônica, confesso que poucas vezes vi um ambiente tão contaminado quanto o atual pântano digital de Brasília.

E o curioso é que os canalhas sempre usam palavras bonitas. “Transparência”, “denúncia”, “combate à corrupção”, “a verdade dos fatos”. Transformam expressões nobres em guarda-chuva de chantagistas emocionais que vivem da fabricação de dossiês, da montagem de narrativas e da prostituição moral do ofício jornalístico.

Nos últimos dias, resolveram despejar lama sobre Weligton Moraes, o Baiano, secretário de Comunicação do Governo do Distrito Federal. Não entro aqui para defendê-lo. Weligton não precisa de advogado de redação nem de beija-mão editorial. Mas existe uma diferença brutal entre crítica jornalística e execução pública encomendada. A primeira se sustenta em provas. A segunda nasce em balcões abafados, regados a uísque barato, notas frias e ódio político.

O alvo, entretanto, nunca foi apenas o secretário. O alvo é maior. O alvo são os blogs independentes. O jornalismo comunitário. Os pequenos portais. Aqueles que sobrevivem sem as bênçãos da Vênus Platinada, sem os tapinhas institucionais da emissora do bispo, sem os afagos comerciais da televisão do libanês ou da rede que um dia pertenceu a um ex-camelô transformado em magnata eletrônico.

As perguntas que não querem calar continuam ecoando nos corredores acarpetados da capital. Por que o ódio seletivo? Por que a mira se volta apenas aos pequenos? Por que tentam destruir quem disputa migalhas de um bolo publicitário legalmente assegurado — os 10% destinados à mídia regional e comunitária —, enquanto os gigantes seguem blindados, intocáveis, quase sagrados? E por que um pernambucano se atreve, sob ordens de quem, a atacar um baiano?

A resposta é simples: os pequenos incomodam. O blogueiro de uma Administração Regional incomoda. O portal independente incomoda. O jornalista que não aceita ajoelhar-se diante de agiotas políticos, incomoda. O problema nunca foi verba. O problema sempre foi controle. Quem domina a narrativa domina o medo; e quem domina o medo, tenta dominar eleições.

Não por acaso, essa operação de esgoto surge justamente às vésperas de uma disputa eleitoral que promete ser uma das mais brutais da história do Distrito Federal. Brasília volta a feder pólvora política; e quando isso acontece, os ratos saem do subterrâneo.

São ratões conhecidos, registre-se. José Roberto Arruda e Gim Argello talvez sejam os exemplos mais acabados da velha escola da manipulação política brasiliense. Dois personagens que conhecem profundamente os subterrâneos da intriga, do dossiê e da destruição reputacional. Não foram apenas cassados ou presos. A dupla tornou-se símbolo de uma cultura política onde a mentira deixa de ser instrumento e vira método.

Esse é o ponto central. A mentira em Brasília virou moeda paralela que circula em grupos fechados de WhatsApp, em perfis anônimos, em site de aluguel vulgarmente conhecido como imprensa marrom, em “furos” produzidos por escritórios de advocacia especializados não em Justiça, mas em guerra política. Muitos desses operadores orbitam o escândalo do Banco Master como moscas em torno de carne podre vendida por 1 milhão de reais. Advogados, contadores, atravessadores, pseudoanalistas financeiros e repórteres que desconhecem pão e consomem croissant convivendo no mesmo aquário de interesses.

É em endereços assim que informação vira commodity criminosa. É onde compra-se silêncio, vende-se reputação, fabrica-se escândalo e enterra-se adversário. Depois aparecem com discurso moralista, como padres bêbados pregando abstinência numa porta de cabaré.

Não tenho mais idade para fingir ingenuidade. Conheço Brasília demais para acreditar em coincidências. Quando um site passa a disparar simultaneamente o mesmo roteiro, os mesmos termos, os mesmos ataques e até os mesmos erros de português, não estamos diante de jornalismo, mas de consórcio de milícia digital, de quadrilha narrativa.

E como quadrilha não se enfrenta com silêncio eterno, resolvi falar. Não para salvar biografia de ninguém. Nem para pedir absolvição pública a quem quer que seja. Mas porque o jornalismo brasileiro já perdeu dignidade demais para aceitar que cafetões da mentira se apresentem como guardiões da ética.

Em situações assim, enfatizo a diferença monumental entre imprensa livre e imprensa alugada. Enquanto a livre respira em qualquer ambiente, a alugada trabalha para quem quer voltar – ou chegar ao poder.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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