Dois em um
Lado ruim de ser governador do Rio é ir parar na cadeia
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Durante décadas, talvez séculos, uma frase definia o Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa, onde cada esquina é um pedaço de poesia. Atualmente, dezenas de governadores depois, sete deles presos ou com embaraços judiciais, o que já foi um dos principais destinos turísticos do mundo se transformou em um verdadeiro balaio de gatos. Ou seria de ratos? “Recte Rempublicam Gerere”, ou seja, “Gerir a coisa pública com retidão” ainda é o lema oficial inscrito no brasão do Estado. Como nativo, eu diria que já foi. Com todas as vênias aos cariocas e fluminenses, hoje seria mais lógico estampar na bandeira do Estado do Rio de Janeiro a frase Salve-se quem puder.
A verdade é que, depois da “expulsão” da fraude chamada governador Cláudio Castro do Palácio Guanabara, nenhum cidadão de sangue bom (CB, como dizem no Rio), de família, que respeita as leis e a polícia e que seja capaz de pensar coletivamente quer governar o Estado. Maior do que o prazer de servir é o temor de ser preso no futuro. Parece brincadeira, mas o local em que cada pôr do sol é um espetáculo que merece ser aplaudido está politicamente acéfalo. Inusitadamente, o Rio está sob a direção de um membro do Poder Judiciário. É um comando 0800 para um povo que se diz politizado e que já ditou regras sobre a política nacional.
Mesmo enxergando tudo de longe e sempre com os braços abertos, o Cristo Redentor já não consegue mais proteger ninguém. Abandonado à própria sorte, entregue às milícias e às facções criminosamente politizadas, o povo do Rio de Janeiro pode ser obrigado a eleger dois governadores em 2026: um para completar o mandato de Castro até dezembro e outro para assumir em janeiro de 2027. Em todo esse louco e estapafúrdio imbróglio de dois em um, nem o Supremo Tribunal Federal (STF) quer colaborar. A Corte começou a votar, mas interrompeu a decisão sobre aquele que governará o Estado até o fim deste ano.
O placar está 4×1 para realização de eleições indiretas, com votos a favor dos ministros Luiz Fux, André Mendonça, Cármen Lúcia e Nunes Marques. É tudo o que almeja o grupo do governador expurgado. O ministro Cristiano Zanin se manifestou favorável às eleições diretas, o que garante a possibilidade do voto popular. O julgamento foi suspenso após o ministro Flávio Dino pedir vistas. Além dele, ainda precisam votar os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Edson Fachin, presidente do tribunal. Terceiro na linha sucessória, o desembargador Ricardo Couto de Castro é o governador temporário.
Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, ele foi empossado por conta da impossibilidade do vice, Thiago Pampolha, que, em maio do ano passado, tomou posse como conselheiro no Tribunal de Contas do Estado. Segundo na sucessão, o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, foi preso, solto, afastado do cargo pelo ministro Alexandre de Moraes e cassado pela Justiça Eleitoral. Bacellar é acusado de vazar informações para o Comando Vermelho a respeito de uma operação da Polícia Federal contra o líder da facção.
Com as mãos para o alto, os olhos vendados para endêmica patifaria política no Estado e pedindo a Deus por dias melhores, a população aguarda decisões superiores. As divergências no STF esbarram em dois caminhos diferentes: a legislação federal (Código Eleitoral) e a estadual (Constituição Estadual do Rio de Janeiro). O primeiro impõe eleições diretas para um novo governador quando o ocupante do cargo é alvo de uma cassação. Já a Constituição Estadual determina que, em caso de “vacância” dos cargos de governador e vice, sejam convocadas eleições indiretas, transferindo para os 70 deputados da Alerj a responsabilidade de definir quem comandará o Estado até o fim do mandato em curso.
Entre o povo do bem, facções e faccionados, a dúvida é a mesma: Qual lei prevalece hierarquicamente? Enquanto os búzios, o tarô, os pais de santo e os pastores evangélicos aguardam o desfecho da votação no STF, cariocas e fluminenses seguem perguntando a Deus onde é que eles estão errando. Como ex-eleitor do Estado e do município, acho que a pergunta deve ser outra: Quando é que eles acertaram? Depois de Leonel Brizola e de seu grupo vinculado ao PTB de Getúlio Vargas, vi de tudo um pouco nas eleições locais, inclusive a eleição do macaco Tião, do pastor Marcelo Crivella e dos sete governadores presos ou afastados por vigarices políticas. Infelizmente, a vida é a soma de nossas escolhas. Resumindo, cada povo tem o destino que merece.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978