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Prazer na caverna

Lady, o eremita, o xadrez, o morango e o mel

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Imagens/IA

O cenário desenhava-se em um vale verdejante, cercado por uma pequena cadeia de montanhas. Abaixo, a cratera, que não se comparava às da Lua, mas a um pomo de vênus feminino que exalava a fusão de aromas dos mais finos perfumes franceses. No meio de uma encosta, vivia um eremita. Em seu reino particular, ele produzia e estudava ervas; redesenhava o posicionamento dos astros cintilantes em noites escuras e se dedicava ao esoterismo como velhos magos.

O eremita também tinha uma outra grande paixão. Era estudar movimentos do antigo jogo dos hindus com seus peões, cavalos, bispos, torres, a rainha e o rei. No momento em que erguia o cavalo negro, a mão direita ficou estática sobre o tabuleiro. Por mais que gostasse de xadrez, teve sua concentração desviada no momento em que avançava com um lance ousado, deixando seu flanco descoberto.

Ouvia cada vez mais próxima uma voz feminina que subia a passos lentos.

– Há alguém aí?

Ele depositou a peça na casa original – um usual lance C6BR -, passou as mãos nos cabelos já ligeiramente prateados, cofiou a barba e encaminhou-se à entrada da caverna. A poucos passos seus olhos brilharam. Uma jovem senhora viúva, demonstrando ter não mais que 35 anos, levava em uma das mãos uma cesta com morangos frescos, colhidos no fundo do vale.

– O que a traz aqui, lady?, indagou, surpreso.

– Vim em busca da companhia e de conversa com um homem maduro, como já tivemos em outras oportunidades. Os rapazes do vilarejo, de mentes vazias, não têm nada a oferecer-me. E você, eremita, desde que se alojou nessa caverna, sempre aguçou-me a curiosidade.

Ele estendeu-lhe a mão para que vencesse a saliência de uma pedra encravada no meio do capim. A aspirante a mulher madura entregou-lhe o cesto com as frutas e acomodou-se em um banco rústico, coberto por peles de cordeiro. E o homem apressou-se em buscar um pote de mel silvestre.

Lady, com cabelos castanhos, ligeiramente curtos lembrando um corte Channel, vestia uma blusa com estampas coloridas cujo decote bem desenhado deixava à mostra um colo que fazia lembrar esculturas de deusas gregas, romanas e escandinavas. Seus olhos castanhos, de um brilho intenso, ofuscavam os raios do Sol. O eremita acomodou-se na frente dela, e foi pego de surpresa admirando uma parte ínfima do mamilo esquerdo que se deixava à mostra.

Dos lábios carnudos e bem desenhados de lady soaram cantos encantados. Viera dos Pampas, mas seus traços suaves em nada lembravam ancestrais italianos ou alemães. Em suas veias corria o sangue lusitano. Logo de Portugal, onde os dois sabiam que na terra de Camões apenas um casal sabe o que se passa entre quatro paredes.

– Temos taças para comermos os morangos?, perguntou.

Diante da negativa, lady ofereceu-se. Deitou-se sobre as peles com o seu corpo quente, abriu a blusa, desfez o laço da saia e depositou sobre o umbigo um morango tão pecaminoso quanto a maçã mordida por Eva. Tomou o pote de mel e deixou escorrer um filete até invadir sua calcinha.

O eremita sentou-se entre suas pernas, mordiscou o morango e lambuzou-se como um zangão que sabe usar a língua. Misturou o sumo da fruta, o mel da abelha e o mel do prazer da lady que se fez rainha. O sol pôs-se no horizonte. E os dois passaram a noite juntos. Ora ele cavalgava, ora era cavalgado. Ele embriagava-se com o mel dela; ela, extasiava-se com o leite dele.

A noite abraçou o vale como um manto de veludo, e a caverna tornou-se um pequeno universo à parte. Era aquecida não apenas pelo calor de uma fogueira tímida, mas pela presença entrelaçada de dois corpos que haviam decidido, ainda que por um instante suspenso no tempo, esquecer o mundo.

O eremita despertou primeiro. A luz prateada da Lua deslizava pela entrada da caverna e repousava sobre a pele da lady, como se a própria noite a reverenciasse. Seus cabelos castanhos espalhavam-se pelas peles de cordeiro, e sua respiração, calma e profunda, parecia acompanhar o ritmo da terra.

Ele não a tocou de imediato. Observou. Havia ali algo que ia além da carne, como se fosse uma espécie de linguagem silenciosa que os dois haviam aprendido sem palavras. Ainda assim, quando sua mão finalmente percorreu o braço dela, o gesto foi recebido como uma resposta esperada.

Ela abriu os olhos devagar.

— Ainda estou aqui?, murmurou, com um leve sorriso.

— Está, respondeu ele, em tom baixo. “E tudo parece mais real agora”.

Sem pressa, ela se ergueu, aproximando-se dele até que suas testas se tocassem. Não havia urgência, apenas reconhecimento. Seus corpos se encontraram novamente, mas dessa vez com uma suavidade mais profunda, como se cada gesto fosse uma continuação de algo iniciado muito antes daquele encontro.

Lá fora, o vento serpenteava pelas montanhas. Dentro da caverna, o tempo parecia respirar mais devagar.

O amanhecer chegou trazendo  o perfume úmido da relva e o canto distante de pássaros invisíveis.

Lady estava sentada à entrada da caverna, com as pernas recolhidas junto ao corpo, observando o horizonte que lentamente se tingia de dourado. O eremita aproximou-se por trás, envolvendo-a com um manto leve . Um gesto simples, mas carregado de significado.

— Você sempre viveu assim?, perguntou ela, sem desviar os olhos do vale.

— Nem sempre. Mas aprendi que o silêncio também pode ser companhia.

Ela inclinou a cabeça, pensativa.

— E agora?

Ele demorou a responder.

— Agora… o silêncio mudou.

Ela virou-se, encontrando o olhar dele com uma intensidade tranquila. Não havia mais a tensão do desconhecido, e sim uma cumplicidade construída no calor da noite. Sem dizer mais nada, ela o puxou de volta para dentro da caverna.

Ali, entre sombras e luzes tênues, voltaram a se encontrar. Não com a urgência da descoberta, mas com a delicadeza de quem já conhece os caminhos do outro. Cada toque era mais lento, mais atento, como se quisessem guardar na memória aqueles instantes. Mesmo porque, o mundo lá fora podia esperar.

O sol já estava alto quando finalmente começaram a se despedir. Lady vestia-se com calma, ajeitando a saia e os cabelos diante de um pequeno espelho improvisado na água de um recipiente. O eremita observava em silêncio, como quem tenta compreender algo que não pode ser retido.

— Vou voltar ao vilarejo — disse ela, com serenidade. “Mas não como antes”, frisou.

— Nem eu ficarei como antes, respondeu ele.

Ela se aproximou, pousando a mão sobre o peito dele.

— Há encontros que não pedem permanência. Pedem lembranças.

Ele assentiu.

Antes de partir, ela tomou um último morango da cesta já quase vazia, partiu-o ao meio e ofereceu metade a ele. Comeram juntos, em silêncio. Depois, sem olhar para trás, ela desceu o caminho pelo vale.

O eremita permaneceu à entrada da caverna por longos minutos. Quando voltou ao seu tabuleiro de xadrez, olhou para o cavalo negro ainda na mesma posição. Dessa vez, moveu-o sem hesitar. Porque ele aprendeu com a vida que algumas jogadas, assim como certos encontros, mudam tudo.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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