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Abuso de poder

Léo300 e seus amigos camelôs que votam

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Priscilla Miranda

Léo300 não nasceu em Esparta. Nasceu no Cerrado, a planície seca onde o sol castiga o lombo do pobre e acaricia o mármore dos palácios. Mas o pai, homem de pouca leitura e muita imaginação, resolveu chamá-lo Leônidas, como se pudesse empurrar o filho para dentro da História apenas pelo peso de um nome. Talvez soubesse, no fundo, que menino pobre precisa nascer guerreiro antes mesmo de aprender a andar.

O tempo passou. O menino virou homem. E como todo homem simples das cidades grandes, acabou engolido pela engrenagem que mastiga sonhos e cospe boletos. Perdeu o emprego mas, vigilante, não perdeu a dignidade. Foi para a rua vender bugigangas como capinhas de celular, carregadores vagabundos, relógios chineses que atrasam mais que promessa de político. Quinquilharias, dirão os doutores de gabinete, mas era dali que saía o arroz, o feijão, o gás e, às vezes, um pedaço de carne magra para os filhos.

Foi então que Leônidas virou Léo300. Não porque tivesse exército, escudo ou muito menos espada. Virou Léo300 porque descobriu que sobreviver no Distrito Federal exige a mesma coragem de enfrentar persas com sandálias furadas.

A banca dele ficava na porta do Shopping Águas Claras. Uma tábua improvisada, um pano estendido e a esperança arrumada em fileiras tortas. Até que apareceu a tropa da ordem pública, sempre tão eficiente quando o inimigo usa chinelo de dedo. A Secretaria DFLegal chegou em grupo, como vêm os fortes contra os fracos.

Derrubaram a banca de Léo300 com a mesma fúria com que jamais derrubam mansões erguidas em áreas irregulares, cercadas por muros altos, cachorros importados e advogados caros. Porque, se o barraco do pobre incomoda, a varanda ilegal do rico vira “questão administrativa”.

Levaram tudo. Cinco mil reais em mercadorias desapareceram no camburão da burocracia. Léo reagiu. Não por valentia, mas por desespero. Aprendeu na própria pele que homem acuado não luta por heroísmo, mas porque ainda precisa voltar para casa e olhar os filhos nos olhos.

No Brasil o cassetete costuma ser pedagógico apenas com quem não tem sobrenome importante. E Leo300 apanhou. Nesse dia, talvez a Leoa que reina no tumultuado império político da sobrevivência, sem ser avisada da operação, tenha limpado seus machucados em silêncio que grita mais que discursos. Mesmo assim, diferente das mulheres pobres que sustentam homens feridos apenas com um copo d’água e um olhar de permanência.

Depois do episódio, qualquer outro teria desistido. Mas Esparta nunca saiu completamente de dentro de Leônidas. Dias depois, lá estava novamente o homem na porta do shopping. Outra banca. Menor, pouca mercadoria, menos brilho nos olhos, com certeza, mas ainda de pé.

Esse o detalhe que Brasília não entende: o pobre cai com facilidade; o que assusta, porém, é a capacidade que ele tem de levantar. Um exemplo disso é Léo300, voltou ao mesmo chão onde havia sido derrotado. Não foi motivado para desafiar o poder, mas apenas para continuar vivendo. Porque a tragédia do homem simples não lhe dá sequer o direito ao descanso.

No fim das contas, os verdadeiros 300 de Esparta talvez sejam milhões. Camelôs, diaristas, motoboys, serventes, ambulantes, aposentados que sustentam filhos desempregados. Gente que acorda cedo, apanha do sistema, engole humilhação e volta no dia seguinte como se a esperança fosse uma teimosia incurável. Talvez seja. Ainda bem.

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Joé Seabra é CEO fundador de Notibras

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