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Curiosidades

Livro na pandemia conta histórias de viagens

Camila Tuchilinski

Muita gente começou a quarentena relativamente motivada: planos de conquistar uma vida saudável, arrumar aquele armário que está bagunçado há anos, fazer cursos online ou publicar uma obra. E teve quem desanimou no meio do caminho. Mas este, definitivamente, não foi o caso de Elisabetta Romano Jales e George Walmor Jales, que escreveram um livro sobre as viagens que fizeram de moto, modelos big trail, apropriadas para trilhas, ou de Troller, um 4X4 off road, dependendo da época e do destino, antes da pandemia do novo coronavírus.

Por fazerem parte do grupo de risco, o casal de idosos cumpre o isolamento social desde o início da pandemia.

“Quando a pandemia iniciou aqui no Brasil, estávamos retornando de nossa terceira Expedição Amereida que, ao longo de cinco meses, nos levou ao Chile, Peru e Uruguai, cortando também o Brasil, do Acre ao Chuí. Chegamos em João Pessoa justamente na semana em que foi decretado o isolamento social e, desde então, só saímos de casa para fazer compras e, no máximo, para alguma ida até a farmácia”, afirma a aposentada.

Foi então que decidiram aproveitar o tempo do isolamento imposto em casa para colocar no papel suas histórias.

Ela e o marido sempre gostaram de viajar, até mesmo antes de ficarem juntos em 2004. “Minha primeira viagem solo foi aos 14 anos de idade, quando fui de carona de João Pessoa para Nova Jerusalém, em Pernambuco, para assistir a encenação da Paixão de Cristo. Pelos meus cálculos, devia ser no início dos anos sessenta. Peguei carona e chegando lá acampei. Foi minha declaração de independência. De lá pra cá, não parei mais”, relembra George, que aos 22 anos, viajou de moto pela América do Sul.

Elisabetta, que nasceu na Itália, tem as recordações das viagens em família na infância. “Minhas primeiras lembranças são de minha mãe e eu atravessando a Itália de ponta a ponta para ir ao encontro do meu pai, oficial da marinha de guerra italiana. Aos cinco anos de idade, fomos morar na Somália, na África, onde ficamos cerca de três anos. Ele costumava viajar para fazer a manutenção das estações de transmissão de rádio. Quando eu tinha dez anos de idade, meu pai inventou de nos trazer para o Brasil. Na época, só sabia que o Brasil tinha vencido a Copa”, diz.

As viagens estavam mesmo no destino do casal. Em 2004, Elisabetta fez um passeio de buggy e conheceu George. “E com ele conheci o Nordeste visto através de um nordestino da gema, cabra da peste”, conta animada. Ele também se lembra de quando se apaixonaram. “Meu roteiro preferido era ir de João Pessoa para Natal pela orla ou levar os turistas pelas trilhas do Cariri até o Lajedo do pai Mateus, em Cabaceiras. Foi numa dessas viagens que Betta e eu nos conhecemos. Ela foi minha cliente e, de 2004 até agora, não nos separamos mais. Viajar é a paixão que nos une. Se for de moto, então, melhor ainda”, ressalta o aposentado

Agora em quarentena, eles reuniram as melhores imagens desses 16 anos de viagens juntos. “Impossibilitados de viajar fisicamente, o fizemos virtualmente revivendo as aventuras de nossas três expedições pelo continente que carinhosamente chamamos de Amereida: América do Sul sem fronteiras, abarcando todas as suas culturas, abrigadas por sua exuberante natureza. Foram quatro meses de intenso trabalho: George se debruçou sobre nosso acervo fotográfico, selecionando e tratando as imagens que melhor retratavam os momentos mais importantes de cada uma das viagens, enquanto eu mergulhava nos textos que as acompanham. Assim, o que era um sonho a ser realizado em algum futuro distante foi, aos poucos, graças também ao confinamento obrigatório, se tornando realidade até se concretizar por completo”, conta Elisabetta.

O livro Geografia dos Afetos – A arte de viver sobre duas rodas já está disponível na Amazon, no formato ebook. “Trabalhar no livro foi a nossa salvação durante a pandemia. De uma coisa estamos certos: o sacrifício valeu à pena”, conclui George.

Sobre as viagens que mais gostaram de fazer nos últimos anos, o casal tem opiniões divergentes. “Para mim, sem dúvida alguma, foi a visita que realizamos no vulcão Etna, na Sicília – Itália. Sempre fui fascinado pelo mistério que envolve os vulcões, por sua conexão direta com o coração da Terra. Quando tive a oportunidade de caminhar sobre a lava solidificada de suas erupções anteriores, pude ver de perto o poder da sua força, que arrasta tudo o que estiver no seu caminho, que tudo recobre com sua manta cinza, que tudo carboniza”, explica o aposentado.

“Engraçado notar a diferença. O que fascina o George é o fogo enquanto o meu lugar mais memorável está associado ao gelo: o Glaciar de Perito Moreno na Patagônia argentina. Talvez os motivos sejam até parecidos com os que impressionam o George, pois dizem respeito à constatação de quão insignificante é o ser humano, frente à grandiosidade da natureza! Ao ver aquele paredão de gelo, de mais de 30 metros de altura, refletindo uma luz azul, vinda de suas entranhas, não pude conter as lágrimas”, se emociona Elisabetta.

Animados, marido e mulher já pensam em escrever uma segunda edição do livro, em que contarão mais sobre viagens para a Europa e Ásia, expedições chamadas de ‘Transalpes’, além dos Alpes, até a Capadócia, na Turquia.

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