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Oxente, meu rei

“Magina, tchê; para ter um trem de votos, candidato vai ter de se virar nos 30″

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Autor/Imagem:
Ana Matoso, Especial para Notibras - Foto Editoria de Imagens/IA

Brasília nunca foi só concreto, eixo e monumento. A capital federal é, na prática, um grande experimento linguístico ao ar livre. Aqui, no mesmo elevador, você pode ouvir um “oxente” seguido de um “uai”, arrematado com um “tchê”, e ninguém estranha. Estranho seria não entender.

Não é à toa que, em época de eleição, o desafio dos candidatos ganha um tempero extra, porque conquistar votos em Brasília exige mais do que promessas. Ao contrário, é preciso fazer uma tradução simultânea de Brasil.

Tudo porque o eleitor brasiliense não tem um sotaque só. Ele é filho de nordestinos, neto de mineiros, vizinho de gaúchos e colega de trabalho de gente que veio do Norte, do Centro-Oeste e de onde mais couber nesse país continental. É praticamente uma ONU… só que com café coado e pão de queijo.

Diante disso, o candidato que chega com discurso engessado corre o risco de parecer estrangeiro dentro do próprio país. Não basta dizer que vai “melhorar a mobilidade urbana”; é preciso saber se o eleitor quer “andar melhor”, “se virar no trânsito” ou simplesmente “não ficar preso naquele engarrafamento danado”.

E é aí que começa o verdadeiro teste, precisamente o momento em que o político precisa dominar a arte de falar várias línguas sem sair do português.

Tem que saber que “trem” em Minas não anda nos trilhos, que “bah” no Sul pode significar quase qualquer coisa, e que “oxente” no Nordeste não é só uma palavra, e sim uma vírgula emocional. Já o “magina” paulista dispensa explicação, enquanto o “uai” resolve dúvidas que nem chegaram a ser formuladas.

O candidato que quiser “um trem de votos”, como diria um mineiro com convicção, precisa mais do que marketing; acima de tudo, é necessário saber escutar. Precisa entender que cada expressão carrega uma história, uma identidade, uma forma de ver o mundo. E talvez essa seja a grande lição de Brasília para a política nacional.

Aqui, onde o Brasil inteiro se encontra, não adianta falar difícil, nem falar bonito demais. O que funciona é falar junto e misturado, respeitando a diversidade que não está só nas palavras, mas nas experiências de quem ouve.

No fim das contas, conquistar o voto em Brasília não é sobre adaptar o sotaque por conveniência, mas reconhecer que o Brasil não cabe numa única voz. Então, sim, o candidato vai ter que se virar nos 30. E, convenhamos… já não era sem tempo, né?

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