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Farinhas do mesmo saco

Mandiocas diferentes alimentam as maracutaias

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto Valter Campanato

Impressionante como o patrimônio da maioria dos políticos duplica, triplica e, às vezes quadruplica em tão pouco tempo. É o caso do líder do governo Bolsonaro na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), cujos bens cresceram 58,3% em apenas quatro anos. São R$ 3,2 milhões a mais, dois quais R$ 420 mil em espécie. Pasmem, mas os dados não são invenção da mídia comunista. Eles constam da declaração encaminhada por Barros ao Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com as informações, em comparação com o último pleito, o patrimônio do parlamentar passou de R$ 5,5 milhões para R$ 8,7 milhões. A maior parte dos valores é decorrente de participações em empresas de segmentos variados e, principalmente, de empréstimos ou adiantamentos feitos a essas empresas.

Embora ache exorbitantes e muito rápidos, não tenho como nem porque duvidar dos ganhos do deputado. No entanto, impossível não lembrar que, no mesmo período, isto é, no mesmo (des)governo, a pobreza, a miséria, a fome e o desemprego dispararam no Brasil. O crescimento do índice de famintos é proporcional ao aumento da fortuna do líder. Pelo menos ele está empregado e trabalhando duríssimo para fazer crescer o monte de din din que amealhou. Também não é demais lembrar que, em 1999, a coluna política do jornal O Globo noticiou que o então deputado federal Jair Bolsonaro acusou Ricardo Barros, ambos filiados à época ao PP, de chantageá-lo para influenciar na votação de um projeto de contribuição previdenciária de inativos e pensionistas.

Diriam os fanáticos bolsonaristas que águas passadas não devem ser consideradas. Digo que só não valem as que são contra o presidente, as que atingem os apaniguados e as que incomodam os atuais parceiros. Quanto aos adversários, a única coisa proibida é xingar a mãe. Afinal, mesmo sendo todos farinha do mesmo saco, o código de ética (?) os impede de informar ao respeitável público que cada um deles foi produzido por uma mandioca diferente. Ou não? Difícil responder, pois as mães são santas e esses detalhes não interessam aos mortais e sempre pacifistas eleitores do bem. Interessa aos fofoqueiros das fake news.

Da mesma forma, desnecessário informar corretamente o tamanho das mordomias e, agora, do orçamento secreto à disposição de suas excelências, também apelidados de congressistas. Outra coisa difícil é saber quem é pelo menos razoável dentro das masmorras dos castelos dos horrores, ou seja, da Câmara e do Senado, casas nas quais a correção normalmente fica do lado de fora. No interior, mais precisamente nos plenários, só os caras de pau profissionais. Embora seja responsável por cada um deles, o povo raramente tem acesso. Quando tem é para ouvir gritos dos líderes de um ou de outro extremo, incomodados com as reações normais de quem sofre com as ações personalistas e sempre desfavoráveis.

Pois é assim que são, pensam, agem e debocham nossas criaturas, os parlamentares. Quanto a nós, os criadores, a maioria reclama de barriga vazia. Enquanto determinadas excelências usam R$ 22 mil da verba de gabinete para pagar conta em uma churrascaria de Brasília, incluindo gorjeta de R$ 2 mil, geralmente o pão dessa maioria cai com a manteiga para baixo. Triste, mas seguir em frente só com topada. Mais triste ainda é ter a certeza de que a tal excelência ri da situação. Seus funcionários cobram, em vão, salários atrasados. Não recebem, mas provavelmente serão obrigados a ajudá-lo a tentar voltar ao governo das Alagoas. Dificilmente conseguirá e dificilmente pagará os colegas jornalistas. Ele e os outros são todos iguais. Milionários, como pessoas físicas, mas, para o bem do próprio bolso, falidos como empresários.

Em resumo, vivem nababescamente com dinheiro que não ganharam. Em qualquer país do mundo, construir uma carreira política séria e baseada em discursos honestos e em ações exclusivamente voltadas para a sociedade não é tarefa das mais fáceis. Imagina tentar consolidar uma imagem sem nada para dizer. Pior ainda é se apresentar como candidato e até como presidente – eleito ou reeleito – sem algo para acrescentar. No Brasil, política não requer aptidão, muito menos atestado de bons antecedentes. Basta que o interessado tenha lábia e saiba convencer os incautos de que o nada sobre nada pode ser tudo para quem nada tem. E assim caminha o Brasil das maracutaias. Até quando? Só Deus pode responder.

*Mathuzalém Júnior é jornalistas profissional desde 1978

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