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Precedentes perigosos

Manifesto condena uso da Ordem como trampolim para carreira política

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Autor/Imagem:
Pimenta Filho - Foto de Arquivo

Um movimento silencioso, porém articulado, começa a ganhar corpo nos bastidores do meio jurídico do Distrito Federal. Um grupo de advogados experientes com atuação consolidada que transita das Cortes superiores aos fóruns mais modestos das regiões administrativas, prepara um manifesto crítico ao que consideram uma distorção institucional, ou seja, o uso da OAB-DF como trampolim político-eleitoral.

O documento, ainda em fase de elaboração, evita personalizar o debate. Não há nomes, tampouco acusações diretas. Mas a estratégia é clara ao preservar o caráter institucional da crítica e impedir que o texto seja interpretado como ataque pessoal ou disputa interna. Ainda assim, o recado é inequívoco.

Os signatários reconhecem que o ingresso de advogados na vida pública não constitui, por si só, qualquer irregularidade. Ao contrário, trata-se de um direito legítimo e, em muitos casos, desejável. O problema, segundo os articuladores do manifesto, surge quando a estrutura e a visibilidade da Ordem passam a ser instrumentalizadas como plataforma de projeção pessoal com fins eleitorais.

Na avaliação do grupo, essa prática compromete a credibilidade da instituição, cuja missão histórica está associada à defesa do Estado Democrático de Direito, das prerrogativas da advocacia e da cidadania, e não para a promoção de carreiras políticas.

Outro ponto sensível levantado no documento é o histórico de tentativas malsucedidas de profissionais do Direito que migraram da atuação institucional para a arena política. Sem citar casos específicos, os advogados argumentam que alguns desses episódios acabaram por desgastar a imagem da Ordem, associando-a a projetos pessoais que, mesmo prosperando nas urnas, deixaram marcas indesejadas.

Para os críticos, esses precedentes reforçam a necessidade de estabelecer limites claros entre a atuação classista e a ambição eleitoral. A preocupação central é evitar que a OAB seja percebida como um “celeiro de candidaturas”, desviando-se de sua função essencial.

O manifesto também deverá enfatizar a importância da neutralidade institucional da OAB-DF. Em um ambiente político cada vez mais polarizado, preservar a independência da entidade é visto como condição indispensável para que ela continue exercendo seu papel de voz qualificada da sociedade civil.

Ao se manter equidistante de projetos eleitorais individuais, a Ordem fortalece sua autoridade moral e jurídica. Trata-se de um ativo que, segundo os advogados envolvidos, não pode ser colocado em risco por interesses circunstanciais.

Ainda que o texto não tenha sido oficialmente divulgado, sua simples gestação já provoca murmúrios nos corredores do poder e da advocacia local. O tema é delicado e promete ganhar densidade à medida que o calendário eleitoral avança.

No pano de fundo, está uma questão maior. Questiona-se até que ponto instituições de representação profissional podem, ou devem, conviver com projetos políticos pessoais de seus integrantes sem comprometer sua essência? A resposta, ao que tudo indica, está apenas começando a ser escrita. E, como sugere o próprio movimento, deverá vir sem nomes, mas carregada de significados.

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