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Brasil

Manifesto dos boleiros vira hino do Torneio da Morte

Wenceslau Araújo

A Covid-19 e suas novas cepas permanecem nos espreitando. Como age nas sombras, o vírus fica esperando pelas oportunidades. E nós, seres humanos, especialmente brasileiros, lhe ofertamos nossas vidas na bandeja. Ainda não temos vacina para toda a população. Apesar das promessas do coitado do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, talvez nem tenhamos até o fim ano. Tudo bem, tudo joia. Abrasileirando o termo, com a gente não tem perrepes. Ou calça de veludo ou aquilo de fora. Se teremos futebol, desde muito o ópio do povo, por que fazermos conta da vacina? Que venha a Copa América! A bola vai rolar, muitos irão vibrar, outros tantos vão gritar, alguns sorrirão, mas certamente milhares deverão chorar após horas, dias, semanas e até meses do último gol da competição.

Alcançamos a metade de 2021, um ano e três meses depois de sermos atingidos por um vírus desconhecido do mundo e tão letal como a língua e os pensamentos daqueles que o negaram desde o início. Aliás, mesmo com doses cavalares de cloroquina e ivermectina, muitos desses negacionistas sucumbiram à fungada do safardana corona. Por conta de nossa desnecessária pressa, demasiada preocupação com a imunização da população e lerdeza na cobrança dos governantes, passado todo esse tempo, apenas 24,5% dos 212 milhões de brasileiros conseguiram levar a primeira picada, O percentual da segunda é ainda mais insignificante: pouco mais de 12%.

Muito pior é ter conhecimento de que um quinto dos brasileiros com mais de 70 anos não completou a vacinação contra a Covid. Ou seja, cerca de 2,6 milhões de idosos do grupo prioritário não voltaram para tomar a segunda dose. As razões são desconhecidas, mas, considerando a ideologização do país, esse grupo pode ter optado pelos aconselhamentos da medicina mambembe, aquela que, embora só encontre pregos enferrujados, teima em martelar na tese do tratamento precoce. Se foi isso, deveriam ter usado a razão e cedido a vez àqueles que têm gosto pela vida saudável, sem sequelas e, sobretudo, pelo futebol com estádios lotados.

Estudos do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário da USP comprovam que, já em abril do ano passado, o governo passou a promover a chamada “imunidade de rebanho” por contágio como meio de resposta à pandemia. Em outras palavras, optou por favorecer a livre circulação do novo coronavírus, sob o pretexto de que a infecção naturalmente induziria à imunidade dos indivíduos. Também afirmou época que a redução da atividade econômica geraria prejuízo maior do que as mortes e sequelas causadas pela doença. Pouca coisa ou nada mudou de lá para cá. Os números são a provo disso. Com todas as vênias aos lunáticos da cloroquina, o rebanho sob a terra lamentavelmente chegou a 475 mil, apesar da tentativa de maquiagem dos dados.

Com os gols da Copa América, confirmada muito mais pela omissão dos jogadores e comissão técnica do que pelo desejo sórdido do presidente, corremos o risco de que as suspeitas de crescimento das infecções se transformem em evidências. Provavelmente, as estatísticas mostrarão em breve os frutos da decantada coesão e do esperado “muro” do “grupo” que compõe a Seleção Brasileira. A esperada bomba que seria a divulgação de um manifesto após o jogo contra o Paraguai não passou de um traque ufanista. Lembrou o regime militar de 1964, quando o governo lançou uma propaganda para induzir o povo a idolatrar o país e aceitar a ideia da ditadura. O tricampeonato mundial de 1970 coroou a campanha governista.

Voltando ao torneio sul-americano, quem melhor definiu o “orgulho” patriótico dos atletas foi o jornalista Juca Kfoury. Na avaliação do laureado comentarista esportivo, depois de tanto suspense os “jogadores da CBF pariram um rato”. A coerência inclui o animal, que normalmente foge ao primeiro miado de um gato mais peludo. Na verdade, agiram de acordo com suas consciências mercantilistas. Nada contra, mas não são mais tão brasileiros como os que aqui estão. Cerca de 99,5% deles vivem na Europa, ganham e gastam fortunas em euro, arranham no português, de vez em quando visitam a pátria mãe e possivelmente já estão imunizados.

Portanto, que venha a Copa América. Ganhar ou perder será mero detalhe. Importante é que, na melhor e na pior das hipóteses, representará um cascalho graúdo na carteira recheada dos ex-boleiros tupiniquins. Mais importante ainda serão os supostos ganhos políticos para aquele senhor de casaca que ocupa o principal palácio do Brasil. Será? Tenho dúvidas, na medida em que o brasileiro está cansado dessa exploração eleitoreira barata e sem graça. Tudo indica que o presidente continua escolhendo técnico, indicando jogadores e escalando a Seleção. Entretanto, foi-se o tempo em que o mandatário obrigava torcedores a gritar gol mesmo que fosse do adversário. Concluindo, o manifesto do rato acabou servindo de hino para o torneio da morte.

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