Tactatear
MÃOS DE L.E.R
Publicado
em
Começo a perceber as mãos do tempo
as mãos que escrevem os versos envelhecidos
deixaram de amar as canetas, os teclados
as tardes de chuva miúda
o orvalho matinal repousando sobre a grama fina
sol de inverno, luz de geladeira
o texto frio prefere, agora, as consoantes duras
da sua aflição antirrimas
e o galo da madrugada apenas aguarda a Lua
lá longe do outro lado do rio
as mãos sempre trabalharam mais que a imaginação
um pouco mimadas, um pouco trêmulas
mas ainda lindas em veias pintas e unhas sem cutículas
com elas ficaram as tarefas mais penosas
escrever, editar, semear, colher
cozer, esfregar, parir, punir
e também acariciar/proteger, por certo
com os anos a repetição acabaram por atrofiá-las
tristeza imensa e inútil essas mãos
que nem sequer são flores ou versos
fechadas, são espelham apenas abandono e solidão
abertas, expõem olhos cegos e vazados
carregados de névoa e sono
cada sonho morre às mãos trêmulas de outro sono
cada ser, homem ou bicho, pedra ou raio, procura um rio
para o banhar do corpo antes de desaguar no mar
uma cama quente para o dormir e tecer o sonhar
um quarto limpo, um criado mudo num silêncio total
implacáveis e carrascas, deixam o corpo pendurado
balançando sem ter onde escorar
mas o céu que nos protege promete sempre outro arcanjo
finge esperança mesmo aquela da rapa do tacho
as mãos teimam como um colchão desbeiçado
esquecido no sótão do quarto de hóspedes
que jamais vieram e deixaram a esperar
sonhos de sonhos de sonhos
histórias de vida
petrificadas pelas mãos
do tempo
………………………………………
*L.E.R – Lesão por Esforço Repetitivo
**Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que mesmo com LER, teima em tactatear palavras com os dedos das mãos perdidas no tempo. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.