Josiane
Máquina de sexo
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Josiane, a Jô, era uma máquina de sexo.
Sabem mulher-raimunda, feia de cara, boa de bunda? Ela era mais ou menos assim: no máximo bonitinha, mas o traseiro! O traseiro apenas, não. Tinha seios esculturais, um umbiguinho comovente, coxas deslumbrantes, uma boca perfeita e uma língua mágica… Se faltavam adjetivos, sobravam machos para utilizar esses atributos, todos encantados por sua inventividade, seu entusiasmo no fuzuê. Jamais vendera seu lindo corpo a nenhum deles, embora não se avexasse de aceitar presentes ou empréstimos (que em geral esquecia de pagar) de seus lanchinhos – como chamava, para si própria, os muitos caras que traçava. E claro, aceitava generosas caixinhas de suas clientes, cada vez mais numerosas.
Jô trabalhava como cabeleireira em um dos mais concorridos salões do Tatuapé. O atendimento não era lá essas coisas; o que atraía freguesas, que nem moscas na merda (vá lá, no mel…) era o relato das aventuras da máquina de trepar. A cliente mal entrava e já ia perguntando, os olhos brilhantes, a calcinha começando a molhar de excitação:
– E aí, Jô? Transou muito neste final de semana? Conte tudo, com todos os detalhes!
– Claro que transei, amiga! Meus cornos gostam demais, quase tanto quanto eu.
E ela contava. Em voz alta, para uma plateia fascinada. Em suas histórias, todas as mulheres eram chamadas de vadias e os homens, de cornos. O que dificultava o acompanhamento da trama quando descrevia uma de suas surubas, com porradas de cornos enfiando-se em porradas de vadias, incluindo nela.
Naquela segunda-feira, ela descreveu uma trepada com um homem de 60 anos, que implorou para que deixasse o cachorro dele participar.
– Falei que não, que nunca tinha feito isso, mas no fim topei. Nunca digo “essa água não beberei”, hê, hê, hê.
Esse era um dos poucos aspectos negativos de Jô. Seu riso não era muito atraente, soava como um motor engripado.
Só que não houve o lance de zoofilia, relatou Josiane às clientes.
– Na hora não rolou. O imbecil do corno ficou com ciúmes do cachorro, levou o cadelo de volta para o canil. Mas castiguei o ciumento, antes da gente transar, ele teve de desfilar uma meia hora, de quatro e latindo, pela casa toda, hê, hê, hê!
Depois que as clientes foram embora, deixando caixinhas mais que generosas para Jô – que as aceitou sem pestanejar, orgulhava-se de seu ofício de contadora de histórias, que traziam um pouco de excitação para as vidinhas murchas daquelas barangas –, a sex machine avisou a patroa que iria dormir no salão. Esta deu um sorriso cúmplice para a funcionária e respondeu.
– Claro, nem precisa avisar. Amanhã me conta tudo. Em primeira mão!
Jô tomou um bom banho, lavou cuidadosamente as partes baixas, aplicou perfume no pescoço, entre os seios, abaixo do umbigo, colocou um vestido bem leve e esperou. Às 22 horas chegou o corno-que-só-gostava-de-ver. Jô deu-lhe um selinho, levou-o para a parte de cima da loja, escondeu-o atrás de umas caixas e ordenou que ficasse bem quieto, para não atrapalhar a ação na parte de baixo. Antes de descer, tocou-lhe umazinha, “era disso que o corno gostava, além de ver”.
Pouco antes das 23 horas, chegou o corno-da-trepação. A coisa pegou fogo. Barba, cabelo e bigode executados com maestria, para o prazer dela, dele e do corno-voyeur.
Depois que os dois lanchinhos foram embora, ela bocejou. Estava cansada, mas satisfeita. Dera prazer a dois machos, em uma espécie de ménage virtual. E gozara adoidado.
– Hora de recarregar as baterias – disse a si mesma.
Pegou um vibrador, ligou-o na tomada e enfiou o tarugaço lá embaixo. Depois fechou os olhos, desligou-se do mundo e apagou. Não dormiu, máquinas não dormem.