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Brasil

Maquinista perdido deixa Petrobras sair dos trilhos

Wenceslau Araújo*

Com apenas um vocábulo – no máximo uma pequena locução -, o governo brasileiro, em um único dia, conseguiu derreter R$ 102 bilhões em valor de mercado da Petrobras. Onde está o sujeito dessa terrível sentença? Sentado na cadeira, na moto ou no jet ski de presidente da República Federativa do Brasil. Também pode ser encontrado no portão do Palácio da Alvorada, em pé, deitando falação, tentando convencer um bando de apoiadores maluquetes de que agiu com correção. Será? Claro que não. A razão do caos vivido pela empresa há cerca de uma semana está resumida na palavra intervenção, definida nos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de interferência, ingerência, intromissão.

Seja lá o que for, o resultado prático do intrometimento do presidente foi sentido na segunda (22), quando ações da empresa chegaram a cair mais de 20% na Bolsa de Valores. Do lado dos apoiadores – para esses Bolsonaro não erra -, o chefe do Executivo jura de pés juntos que a atual política de preços de combustíveis deixa feliz apenas “alguns” do mercado financeiro. Pode ser. O problema é que sua decisão desagrada a todos, inclusive ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que, a julgar pelo silêncio dos últimos dias, está aqui de mágoa. Depois de uma prece silenciosa, indago a meus neurônios como pode um mandatário populista atirar contra a própria carne. Digo isso porque boa parte dos pequenos investidores da petroleira vem da parcela de eleitores que o colocou no Palácio do Planalto.

Como falar em seriedade sobre alguém que, com duas ou três palavrinhas mágicas, provocou prejuízos gigantescos à Petrobras, aos investidores e, sobretudo ao país? Pelo menos dessa vez, a culpa não caiu no colo da imprensa, de modo mais contundente àquela que avalia Jair Bolsonaro como o pior presidente que o Brasil já teve. Como teima em afirmar a turma do rebanhão, essa conclusão não é criminosa. É fato. Além do isolamento e do respeito internacional, o Brasil acaba de jogar um de seus principais ativos no buraco negro. E não foi só a Petrobras. A falácia presidencial também derrubou o valor de mercado de estatais como Eletrobras (com perdas de R$ 280 milhões) e Banco do Brasil, ambas incluídas no pacote populista e estatizante da campanha bolsonarista.

Não tenho expertise na área, mas obviamente é uma incoerência eu quebrar ou arranhar meu carro ou imóvel para vendê-los. Claro que mesmo um doido recém-saído da clausura avaliará para baixo os bens que eu mesmo depreciei. Ainda que o gesto tenha agradado sua sonhadora base eleitoral, Bolsonaro sabe – ou finge não saber – que o investidor (interno e externo) perdeu o restinho da confiança no Brasil. Voltando duas semanas no tempo, chegamos a uma tentativa frustrada de greve dos caminhoneiros, que reclamavam dos preços do diesel, decorrência direta da alta quase diária do dólar. Portanto, podemos afirmar que os valores crescentes do diesel serviram de combustível para o incêndio de proporções incalculáveis na Petrobras.

Em síntese, foi mais fácil intervir na empresa e fazer média com os caminhoneiros do que convocar a equipe econômica e, em conjunto, tentar uma solução capaz de agradar a todos. Aí está o X da questão. Trabalhar em conjunto não é prática comum no Planalto de Jair Bolsonaro. A generalização do governo custará muito caro ao país. Não questiono o valor técnico e moral de nenhum deles, principalmente do general Luna e Silva, escolhido pelo presidente para substituir Roberto Castello Branco no comando da estatal do petróleo. Questionável é forma como ocorreu a mudança. Para alguns, é mais um grave caso de ciúme e inveja presidencial de quem, reconhecidamente, fez um bom trabalho.

Será que falta assessoria econômica armada e capaz de explicar ao presidente da República as nuances do preço do petróleo no mercado internacional? Assessoria deve ter. O que falta é aquilo roxo e um pouco de coragem para informá-lo que a cotação do dólar, inflação do período e a ingerência [CC1] velada (agora oficial) na empresa, associadas às variações do IPCA e do IGP-M, são fatores que desequilibram o preço final. Ainda sobre a generalização do poder central, os oficiais graduados do Clube Militar parecem habitar outro planeta. A economia derretendo em plena recessão e eles preocupados exclusivamente em atacar jornalistas, a esquerda e acarinhar o deputado cheio de músculos Daniel Silveira.

Preso desde a semana passada, Daniel está recolhido por atentar contra a democracia, agredir verbalmente os ministros do Supremo Tribunal Federal e, após jurar fidelidade à Constituição, defender publicamente o inconstitucional AI-5, o mais vil produto do governo ditatorial iniciado em março de 1964. Não bastasse a total inversão de valores morais, éticos e econômicos, enquanto isso o real perde valor e gera inflação e os agricultores de Mato Grosso somam prejuízos de R$ 1,5 mil/dia por falta de estradas para escoar a produção de grãos. Perdoem-me os insensatos, incoerentes e defensores da ditadura militar. Vocês são cegos ou preferem tapar os olhos para a crise nacional. O Brasil de hoje é um trem bala desgovernado e bem próximo do descarrilamento. E o maquinista? Diriam os menos céticos que ele passa férias em Marte. Os descrentes são capazes de dizer que ele não está nem aí.

Desnecessário ser técnico para perceber que, caso isso ocorra, todos seremos atingidos. Como no pouco caso com a pandemia do novo coronavírus, sobrarão poucos se optarmos por não atender às leis de mercado, de civilidade e sanitárias. O que fazem com a nação é um atentado ao estado de direito, cujo significado é a submissão do Poder Público a normas e procedimentos jurídicos que permitem ao cidadão acompanhar e eventualmente contestar a legitimidade e a constitucionalidade dos atos. Por exemplo, temos o dever de saber a movimentação do governo federal na imunização absoluta contra a Covid-19. Chegamos a 10.195.160 de infectados e 247.143 mortos. O presidente não faz ou não sabe fazer sua parte. Façamos nós. Se não fizermos, os coveiros farão.

*Wenceslau Araújo é jornalista

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