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Mulher

‘Marcas antigas que não se renovaram estão ficando para trás’

Foto/Divulgação
Sérgio Amaral

À frente do mais importante evento dedicado aos novos estilistas do mercado brasileiro há mais de duas décadas, André Hidalgo e sua Casa de Criadores ajudaram e continuam ajudando a projetar o novo no mercado de moda nacional.

Da escalação dos modelos de suas passarelas, por onde começaram todos aqueles que ganhariam alguma projeção do mercado anos mais tarde (incluindo Gisele Bündchen e Cauã Reymond, nos tempos em que era modelo), passando por produtores, maquiadores e estilistas, são dezenas os nomes hoje consagrados surgidos ali.

Entre eles estão Cavalera, Ronaldo Fraga, João Pimenta e Juliana Jabour, além de André Lima, Karlla Girotto e Jeziel Moraes.

Na entrevista a seguir, o diretor do evento fala de sua 43a edição, que acontece até sexta, 27, no MAC-USP, avalia as dificuldades enfrentadas pelos novos nomes de ontem e as vantagens dos de hoje, fala do impacto das redes no mercado e de como as grandes marcas nacionais estão ficando para trás ao deixarem de investir em novos nomes à frente de suas criações.

“Cada vez mais, as que não se renovarem vão ficar para trás – e vão ficar para trás bonito”, avalia. Lei os principais trechos:

André, conta um pouco dessa 43ª edição?

Vai ser no MAC-USP e tem menos gente no Projeto Lab, dedicado aos novíssimos… Migramos algumas marcas para o line-up oficial e nessa edição quis fazer um Lab mais enxuto. Isso tem ligação com o fato de hoje em dia marcas com esse perfil [pequeno] chegarem bastante prontas e estruturadas para o que elas se propõem.

Isso é uma coisa nova.

Os estilistas da Casa de Criadores têm um tamanho que é muito adequado. Eles não dão passos maiores que a perna e ao mesmo tempo querem vender e têm uma história comercial bastante resolvida. Eles já chegam aqui com ponto de venda, com um número razoável de produção e tem uma maneira de interagir com seu público que é muito rápida,, por meio de internet e do Instagram. Eles já tem um preparo que em muitos casos dispensa essa “iniciação” no Lab. Esse é um fenômeno dessa edição.

Quais os destaques desta temporada?

Destaco quem está entrando: Caja, Ken-gá, a Saint Studio, que é de Campinas. Temos um pouco de tudo em termos de estilo e essa diversidade da Casa de Criadores é bacana. É um time interessante de estilistas fazendo uma moda voltada para esses novos tempos, com o pé no chão. Como não são tão grandes, eles conseguem ser mais criativos, e ainda tem um canal de comunicação bastante efetivo.

Fala um pouco do projeto Sou de Algodão que vai fazer o desfile de abertura?

Esse é um projeto que estamos fazendo junto com a Abrapa, uma associação de produtores de algodão que vem cultivando e exportando algodão sustentável numa escala gigante, de cerca de 170 milhões de toneladas por ano. Pelo fato de eles terem essa preocupação com a sustentabilidade, acabamos desenvolvendo juntos um projeto muito bacana que pretende promover essa matéria prima por meio de uma série de ações ao longo de dois anos. A primeira delas é esse desfile em que apresentamos cocriações de empresas e clientes ligados a esses fornecedores, como a Martha Medeiros, a Track & Field e a Vicunha, assinadas pelos participantes do evento.

A Casa de Criadores tem mais de 20 anos, muitos dos nomes que surgiram nesse período fecharam suas marcas e foram atuar em outras áreas do mercado. A que você atribui isso?

Acho que é um movimento natural. Sempre tivemos gente nova, apontada como muito talentosa, que deixaram suas marcas e foram fazer consultoria, dar aulas, atuar em outros projetos ligados a moda. Tem o fator crise, claro, mas isso acontecia antes, continua acontecendo e vai continuar a acontecendo.

Acha que falta marcas grandes nacionais apoiarem esses novos designers, assim como vem acontecendo com as grifes de luxo na Europa, por exemplo?

A maior parte dessas marcas mais antigas não soube se renovar. Primeiro porque algumas delas ainda vivem de o dono entrar no fim do desfile. Isso, para mim, é uma coisa emblemática de como o mercado precisa se profissionalizar e falta investir no estilista. Tem estilistas que saem da Casa de Criadores, vão trabalhar no departamento de estilo de grandes marcas, mas na hora do desfile não entram na passarela. Não sei se é por conta da crise ou se as marcas não têm essa visão, mas cada vez mais, as que não se renovarem vão ficar para trás – e vão ficar para trás bonito. Isso já está um pouco evidente. A Internet e as redes sociais estão mudando muito rapidamente muitos setores do entretenimento: a TV aberta e mesmo a TV paga estão ficando velhas. E isso vai acontecer com a moda também. Vão surgir outras formas de apresentar.

Acha que os desfiles vão ficar ultrapassados?

Acho que o desfile não vai ficar velho tão cedo. Ele vai mudar, se renovar, sempre haverá alguém validando e valorizando – já foram os jornalistas de moda, agora são os influencers. Ainda existe uma excitação em ver aquilo, de se encontrar com a imprensa, com o mercado de moda, com o público. Esse encontro é muito precioso, ainda mais hoje em dia, em tempos de redes sociais. Sou suspeito, mas acho incrível a força de um bom desfile.

Você tinha uma vontade de fazer um livro dos 20 anos da Casa de Criadores… Tem algum tipo de plano ainda nesse sentido?

Esse é um projeto que temos o maior carinho, mas depende de um investimento maior. Estamos trabalhando para colocá-lo na lei Rouanet e queremos fazer um livro muito incrível – temos imagens maravilhosas. Como não tem data certa, estou achando que talvez fique para os 25 anos. Se alguém tiver interesse, pode procurar a gente!

Quais os destaques desses anos todos?

Nossa! Tem muitos. Todas as tops desfilando ainda new-faces na Casa de Criadores: Gisele [Bündchen], Ana Claudia [Michels]… elas eram meninas. Isso é uma coisa legal porque a Casa é um evento lançador de novos talentos de diversas áreas. Quando fizemos dez anos e teve um desfile retrospectivo do André Lima; o desfile do Icarius inspirado na mãe dele que estava com um câncer terminal e impactou muito gente. O desfile do Ocimar Versolato, quando ele voltou para o Brasil. E as várias locações que já usamos para o evento: embaixo do Viaduto do Chá, no Pacaembu, tivemos um diálogo muito bacana com a cidade. E tem o primeiro desfile de todo mundo que a gente conhece e acha bacana: João Pimenta, Ronaldo Fraga. Como produção de imagem sempre foi um evento muito forte.

O que diferencia essa turma que você mencionou da nova geração de criadores?

O que tem me marcado são as grifes que usam a moda para falar de questões mais atuais, políticas, estilistas pretos falando do movimento preto, de trans… A gente desfilava com modelos trans quando ninguém nem falava disso. Isso tudo marca a nossa história. De alguma forma, tudo surgiu e se consolidou ali primeiro.

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